Sabrina Noivas 33
The Cowboy, The Baby And The Runaway Bride

UM COWBOY COM UM BEBE T.J. Tyler no acreditava no que via. Sentado no Sea Grape Caf, com o filho no colo, deparou-se com Callie Jo Murphy usando 1 vestido de noiva. Anos antes, Callie deixara-o esperando no altar... e tudo indicava que cometera a mesma proeza novamente. UMA NOIVA REBELDE Quando T.J. ofereceu a Callie o emprego temporrio como governanta, ela aceitou. Porm, sabia que no poderia ficar por muito tempo. Afinal, ela o ferira demais, e T.J. nunca a perdoara. Mas todas as vezes em que o fitava conscientizava-se de que feriria o prprio corao se no fugisse novamente.

Digitalizao e correo: Nina
Dados da Edio: Editora Nova Cultural 1995
Publio original: 1995  Gnero: Romance contemprneo
Estado da Obra: Corrigida

Srie The Cowboy
Ordem	Title	Ebooks	Data
1	The Cowboy, The Baby And The Runaway Bride
Sabrina Noivas 33 - Perdoe-me, Cowboy	Apr-1995

2	The Cowboy And The Princess
	Nov-1995


Srie Bundles Of Joy
Autor	Ttulo	Ebook	Data
Carey, Suzanne	The Daddy Project
	Apr-1995

Longford, Lindsay	The Cowboy, the Baby and the Runaway Bride	  Sabrina Noivas 33 -
 Perdoe-me, Cowboy	Apr-1995

Montana, Pat	Babies Inc.
	Apr-1995

Scott, Christine	Hazardous Husband
	Apr-1995

Steffen, Sandra	Lullaby and Goodnight
	Apr-1995

Morgan, Kristin	Make Room for Baby
	Jun-1995

Morris, Julianna	Baby Talk
	Aug-1995

Meier, Susan	Temporarily Hers
	Oct-1995

Zane, Carolyn	The Baby Factor
	Jan-1996

Broadrick, Annette	Instant Mommy
	Mar-1996

Paige, Laurie	An Unexpected Delivery
	May-1996

Steffen, Sandra	For Better, For Baby
	Jul-1996

Ferrarella, Marie	The Man Who Would Be Daddy		Sep-1996

August, Elizabeth	The Rancher and the Baby
	Nov-1996

Morgan, Kristin	Having Gabriel's Baby
	Jan-1997

Ferrarella, Marie	Your Baby or Mine?
	Apr-1997

Anthony, Laura	Baby Business
	Aug-1997

Morris, Julianna	Daddy Woke Up Married
	Oct-1997

Patrick, Natalie	Boot Scootin' Secret Baby
	Apr-1998

Nicholas, Robin	Man, Wife and Little Wonder
	Jun-1998

Parv, Valerie	Baby Wishes and Bachelor Kisses		Aug-1998

Tarling, Moyra	Wedding Day Baby
	Oct-1998

Steffen, Sandra	Burke's Christmas Surprise
	Dec-1998

Southwick, Teresa	A Vow, a Ring, a Baby Swing
	Feb-1999

Tarling, Moyra	The Baby Arrangement
	May-1999

Wilson, Leanna	Babies, Rattles & Cribs... Oh, My!		Jul-1999

McMinn, Suzanne	The Billionaire and the Bassinet		Aug-1999

Longford, Lindsay	Baby, You're Mine
	Oct-1999

Ferrarella, Marie	The Baby Beneath the Mistletoe		Dec-1999

Weaver, Carrie	Baby, I'm Yours
	Mar-2008

MacLean, Stella	Baby In Her Arms
	Mar-2009

Mayberry, Sarah	A Natural Father
	Mar-2009

Myers, Cindi	Child's Play
	Mar-2009

Quinn, Tara Taylor	Sophie's Secret
	Mar-2009

Stockham, Kay	Her Best Friend's Brother
	Mar-2009




















CAPITULO I

Callie Jo Murphy no saberia explicar por que ergueu os olhos. Talvez levada pelo repentino vento mido que invadiu o salo quando a porta foi aberta. Ou o ronco dos motores de um avio que sobrevoava o Golfo do Mxico. Talvez, simplesmente estivesse cansada de observar a praia deserta, reflexo de sua prpria solido. Depois de um sem-nmero de crculos imaginrios desenhados com a ponta do dedo sobre o tampo de frmica da mesa e de assistir ao crepsculo no cu brilhante de outubro, no conseguia entender o motivo de tanta melancolia. Inexplicavelmente, porm, algo a fez olhar.
O dedo interrompeu o crculo que traava. Com a outra mo, apertou o copo de refresco. As lembranas afloraram em sua mente e, com elas, o imaginrio aroma de golfo e pinho. Como que hipnotizada, no conseguiu desviar os olhos da presena marcante que preenchia o hall de entrada.
A porta bateu s costas do cowboy que caminhava em direo ao caf iluminado, barulhento, repleto de pessoas que conversavam e riam despreocupadamente. Usava jeans desbotado e o chapu encobria seus olhos. Magro, ombros cados, cabea baixa, perdido em seus pensamentos, parecia no enxergar ningum. Apesar da aparncia fatigada, exalava toda a essncia do poder masculino, pelos ombros largos, as mos bronzeadas, numa das quais carregava um cesto de plstico azul de beb. Num movimento rpido, com a ponta do dedo empurrou a aba do chapu, deixando  mostra os cabelos castanho-escuros. Assim que o avistou, a jovem e alegre funcionria do caixa, cumprimentou-o:
	Ol!
	Ol!  respondeu com um sorriso envolvente que quase desarmou a garota. Sentou-se num banco giratrio do bar, com o cesto no colo.
De repente, Callie teve a impresso de que quatorze anos de sua vida, desapareciam levados pela brisa do entardecer. Com um arrepio na espinha e as pulsaes aceleradas, viu-se novamente como uma adolescente de dezessete anos ansiosa, assustada,  merc daquele sorriso demonaco, um sorriso capaz de convenc-la de que sua vida era montona depois que soubesse o quanto era alegre e divertido o mundo ao seu redor.
T.J. Tyler.
Sea Grape pareceu encolher, escurecer, tornar-se irrespirvel. Arrastada no tnel das recordaes, Callie tinha a impresso de que a gola da blusa comeava a estrangul-la.
O rosto de feies bem delineadas parecia mudar como as luzes do cu ao entardecer, ressaltando o brilho dos olhos. No era bonito. No T.J. Tyler. O nariz aquilino estava longe da perfeio. O modo de sorrir, inclinando os lbios, no era nada clssico. Mesmo com grande esforo de imaginao, no poderia ser considerado bonito. Algum acendeu as luzes, iluminando o rosto do cowboy. Bonito era uma palavra comum para descrever aquele rosto. Sempre houvera muito mais do que isso.
Na verdade nunca algum o descrevera como bonito. Seria fcil demais.
E T.J. Tyler jamais fora fcil.
Do alto da copa do chapu inclinado at s botas empoeiradas firmemente plantadas no piso de concreto, era um homem que sempre fora mais. Mais poderoso, mais autoconfiante, mais tudo... enquanto ela... bem, ela sempre fora totalmente menos.
Perturbada com as batidas descompassadas de seu corao, Callie lamentou o impulso que, algumas horas antes, a levara a desviar-se do caminho planejado, para seguir em direo  ilha.
As mos tremiam sobre a mesa.
Naquele dia, por duas vezes cedera aos seus impulsos. Do contrrio, quela hora estaria num avio, atravessando o cu rumo a uma outra ilha verdejante. Irlanda. E no ali, com o passado diante dela.
Podia ouvir o baque do corao aflito, o tilintar dos cubos de gelo no copo, o roar das meias de nilon contra a curva da cadeira.
Como se sentisse objeto daquele exame minucioso, vagarosamente, T.J. girou o banco em direo ao restaurante.
O ar parecia to pesado que Callie mal conseguia respirar. No queria se mover, piscar, erguer o copo, temendo atrair a ateno daquele olhar profundo e acinzentado.
A garganta secou, contraiu-se, impedindo-a de engolir. Ele ainda tinha o incrvel poder de tirar-lhe a respirao. Comple-tamente. Facilmente.
A voz cristalina da garota do caixa soou de muito longe.
	Passeando?
O canudo de plstico se partiu entre os dedos de Callie. Piscou, finalmente em condies de respirar.
T.J. voltou-se para a jovem, que se inclinara, sobre o balco de vidro. Com um sorriso enlevado, ela apoiou o queixo nas mos.
	No. Vou  lavanderia. A mquina de lavar roupas quebrou.  T.J.. ergueu os ombros. Com o movimento, o cesto balanou suavemente. Antes de continuar, olhou para dentro do cesto.  Os bebs costumam trocar de roupa vrias vezes por dia. E no costumam perguntar se a mquina est funcionando ou no.
	 verdade.
	Tina, voc trocaria dez dlares em notas por moedas?
Apesar do tom baixo e suave, Callie notou fadiga e contrariedade na voz dele. Percebeu tambm o esforo que T.J. fazia para manter o sorriso.
Claro! Sem problemas.  A garota abriu a caixa registradora, de onde tirou algumas moedas. Contou-as, entregando-as a T.J. Depois, guardou as notas.  Como vo as coisas, T.J.?
_ Tudo bem, criana.  O tratamento soou como uma rejeiao velada e carinhosa  investida da garota.
Erguendo-se na ponta dos ps, Tina olhou o beb por sobre o balco.
Que doura!
 Sim.  De novo, o sorriso cansado. T.J. com um beb!
Callie no identificou o sentimento que a envolveu. No era magoa. No, jamais se sentiria magoada com a felicidade de T.J. Com a ponta dos dedos, puxou a gola da blusa, numa tentativa de aliviar a presso sobre o pescoo.
T.J. casado. E com um filho.
Depois de tantos anos sem pensar em Tarpon City, T.J. e o passado, Callie conteve-se para no debruar-se na mesa e gritar.
Orgulho e esperana de que T.J. e seu beb sassem do caf sem notar sua presena, eram o que a mantinham firme.
Ela escolhera seu caminho. Vivera de acordo com suas opes, sem olhar para trs. Nunca.
Fora um impulso que a levara at l.
Impulso. Nada mais.
Nada.
O aperto em seu corao no era pior do que o aperto de sapatos novos. Poderia conviver com isso. E, tambm, passaria.
Meio de costas para ela, com a mo livre, T.J. segurou a maaneta da porta.
Callie no se moveu. Se no piscasse, no fizesse o menor rudo, o perigo passaria sem sequer not-la. Permaneceu imvel.
Oh, T.J., no pare. JVo se volte. V embora. Por favor!, pensou, com medo at de respirar.
Ele inclinou a cabea. Como se, de repente, Callie o segurasse pelo ombro, T.J. parou. Com as sobrancelhas erguidas, num misto de curiosidade e indignao, voltou-se.
Absurdamente, desespradamente, Callie fechou os olhos, desejando desaparecer entre a fumaa e o rudo de Sea Grape.
T.J. juraria ter ouvido algum cham-lo pelo nome.
Intrigado, parou com uma das mos na porta. Refletidos nas vidraas, os frequentadores -do caf formavam uma massa febril e colorida. O azul-marinho das calas dos garons e garonetes. As camisetas laranjas, prpuras e amarelas. Uma camiseta vermelha. Tudo se movendo num redemoinho de cores.
E, isolado num canto, quase escondido, completamente imvel, um ponto rosa claro.
Um arrepio percorreu-lhe os cabelos e a nuca.
Desde o momento em que abrira a porta do caf, sentira-se estranhamente nervoso. Estava inquieto, tenso, mas no saberia explicar o motivo.
Durante todo o tempo que passara no Sea Grape, a irritao e a melancolia, j peculiares em sua natureza, se acentuaram envolvendo-o como o p vindo dos campos. No final de um dia que comeara mal e transcorrera pior ainda, aquela impacincia o aconselhava a sair do caf o mais rpido possvel. No estava disposto a jogar conversa fora. Embora naquela poca do ano a maioria dos fregueses fossem moradores do local ou das ilhas prximas, percebia a presena de alguns turistas. Mesmo assim, mal olhara para o restaurante.
Olhos fixos na imagem rosa plido refletida no vidro, friccionou a nuca.
Voltou-se, observando ansiosamente a multido.
O corao batia descontrolado. Os pensamentos atribulados obrigavam o crebro a trabalhar numa rotao exagerada. Nada fazia sentido.
Fora a imobilidade dela que chamara ateno. Poderia ter se movido. Ento, passaria despercebida. Teria se misturado  multido.
Mesmo meio encoberta pela penumbra, reconheceu-a. Perplexo, ali parado, fitando o rosto de olhos fechados, T.J. perguntava-se como no a vira logo que entrara. O pescoo delgado e o brilho dos cabelos castanhos lhe eram to familiares quanto os cabelos louros do filho recm-nascido.
Apertou a ala do cesto de beb. Por um momento, teve a impresso de que o plstico transformara-se numa pele acetinada.
Sabia que o vira. Sabia tambm, que desejava que ele sasse, desaparecendo porta afora.
Sim, o bom 'senso aconselhava-os a sarem, ele e Charlie, imediatamente daquele caf. Porm, parecia que algo impedia seus movimentos.
O cansao e a irritabilidade deram lugar  raiva, raiva que julgara esquecida. Segurou a ala do cesto com mais fora. Como se sentisse a tenso de T.J., o beb abriu os olhos, largou a chupeta e choramingou.
Olhando para o filho, respirou fundo. A raiva desapareceu.
 No chore. Est tudo bem, garoto. Papai est agindo como um tolo.  Charlie sorriu, reconhecendo a voz de T.J.
Sim.  Balanou o cesto lentamente, do modo como o beb gostava.  Sei. Sou um irresponsvel.
Charlie ergueu os bracinhos. Preocupado com sua prpria atitude, T.J. murmurou:
	Oh, garoto, estamos diante de um grande problema. Voc nem imagina como seu velho pai est se sentindo.
Chupando vigorosamente os dedos, Charlie agitava as pernas.
	Com fome?  T.J. verificou o relgio.  Ainda no est na hora, comilo. No seja apressado!  Acariciou a cabea do filho.  Os dentes esto incomodando, no?  Colocou a chupeta na boca do beb, sentindo o calor da mozinha molhada na sua.
T.J. suspirou. O toque de Charlie era o presente, a realidade, a lembrana de laos e obrigaes.
Atingido pelo terrvel conflito entre passado e presente, fitou o canto do restaurante.
Os olhos dela continuavam cerrados, numa mensagem explcita de que pretendia continuar ignorando-o.
No poderia mais simplesmente virar,as costas e sair do caf como se nada acontecera.
	Droga!  resmungou.
Procurando mostrar-se o mais indiferente possvel, em passos lentos caminhou na direo dela. Um tremor agitou seu peito.
A medida que se aproximava com relutncia, o rosa plido da blusa de mangas compridas tremeluzia, ofuscando suas vistas. Notou as mos finas pousadas sobre a mesa, a curva dos seios e os ombros delicados. Sentiu a boca seca.
Ela abriu os olhos.
E, ento, viu-o ali... diante dela, pela primeira vez depois de um quente e distante junho.
T.J. colocou o cesto de Charlie sobre a mesa entre ambos. Por um longo momento fitaram-se em silncio.
Uma leve contrao dos nervos da mao, traram o nervosismo dela.
	Ora, ora... Quem vejo diante de mim... Thomas Jefferson Tyler em pessoa  ela falou quase num murmrio.
O tremor parecia crescer dentro dele, mas T.J. esforou-se para que Callie no percebesse sua perturbao.
	Quem vejo diante de mim... Srta. Calliope Josephine Murphy em pessoa  imitou-a.  O que a traz de volta a esta terra?
Callie, que olhava para o beb, suspirou. O suspiro aguou a curiosidade de T.J., despertando seus instintos de caador. Um dia difcil, de repente, tornara-se muito mais complicado.
Ela cruzou as mos.
	Oh, nada de especial!  O sorriso era agradavelmente
reservado, numa espcie de familiaridade distante. O sorriso tocou-o fundo e, de repente, T.J. desejou transformar a serenidade dela em algo mais autntico, mais pessoal.
	Est de passagem, no?  indagou, tambm sorrindo.
	Notou o olhar de Callie correndo dele para Charlie.
	Sim.  O sorriso permanecia inalterado.  Uma parada para um rpido descanso.
	Na ilha?
Ela no respondeu. Um leve rubor cobriu suas faces.
	Bem, pensei que tivesse voltado em memria dos velhos tempos.
Os lbios de Callie tremeram e T.J. apostaria que ela no conseguiria continuar sorrindo. Puro engano.
	Absolutamente  esclareceu e T.J. teve a impresso de que a doura do sorriso dela continha um toque de triunfo.
Afinal, o que esperava? Talvez Callie j esquecera o passado. Sempre escondera uma parte de si mesma. Aos dezessete anos, j se mostrara to distante quanto o arco-ris. E, como no conto de fadas, ele seguira em busca do fim do arco-ris.
	Pssimo  resmungou. Ajeitou Charlie no cesto.  Preferia ouvir que voltou para matar a saudade.  Lanou o desafio, esperando pela reao dela.
Callie continuou impassvel.	:
	Talvez em outros tempos. No agora.  Segurou o copo, levando-o aos lbios.
Nao havia mais lquido, exceto o gelo derretido. Quando recolocou o copo sobre a mesa, a mo foi sacudida por um leve tremor.
Para T.J. foi o suficiente. J obtivera a resposta. Porm, continuava a provoc-la, no entendendo o motivo de tanta indiferena, como se Callie tivesse erguido uma barreira entre ambos.
	Muito estranho! Voc disse que parou aqui para descansar--- Com Um movimento de cabea apontou para o salo lotado e barulhento.  Creio que este local no tem nada de repousante.
Os olhos atordoados olharam ao redor.
	No. Realmente no tem.  Callie tocou no copo. Apenas parei para beber algo. Estava com sede.
	Nenhum restaurante ou posto de gasolina no seu caminho?  Ergueu uma sobrancelha com ar de ingenuidade.
O rubor acentuou-se nas faces dela.
	Que azar! Nem um nico posto de gasolina!  T.J. meneou a cabea.  Preciso me lembrar desse detalhe da prxima vez em que viajar para... Para onde mesmo voc disse que estava indo?
	No disse.  Ela cruzou as mos de novo, a esquerda sobre a direita. O brilho de diamantes vindo dos dedos imveis, ofuscou-o.
	O gato comeu sua lngua?  brincou, empurrando o chapu para trs, de modo a v-la melhor.
Callie abriu as mo sobre a mesa.
	Npoles. Venho de Npoles e vou para Tampa. Alis, devo estar em Tampa esta noite.  A voz soou forada.
	Oh, Callie... No vale a pena mentir.  Ele tocou-lhe o dedo que exibia as jias valiosas. Precisava toc-la. Uma vez mais.
Callie retirou a mo.
	J vou indo.  Ofegando, levantou-se.
Apesar de rpido, o contato com a pele dela perturbou-o. Mesmo com o cheiro de comida e fumaa, o perfume suave que emanava de Callie atingiu-o em cheio, despertando sentimentos indesejveis.
Sua pele sempre cheirara a sabonete e flores. Gardnia e jasmim. Estonteantes.
Acariciando um dos ps de Charlie, parou na frente dela, indeciso se devia ou no deix-la sair do Sea Grape para desaparecer noite adentro.
	O que h em Tampa que no possa esperar, Callie?
Por que a pressa, querida?  Pretendia falar num tom alegre, despreocupado, porm, sua voz soou spera, abalando seu autocontrole.
Embaraado, inclinou-se. Queria desculpar-se. Nada mais.
Callie no conseguia pensar com clareza. No com T.J. to prximo. Precisava ir embora. Respirando o odor de p, palha e homem, no pode evitar que as recordaes aflorassem. Entrou em pnico. Sem pensar, sabendo que precisava escapar imediatamente, pegou a bolsa. Ao levantar-se, bateu o corpo contra a mesa.
Com a pancada brusca, a mesa virou com copo, canudo e cesto de beb.
Na tentativa de impedir que o beb casse ao cho, Callie jogou a bolsa e suas mos colidiram com as de T.J.
	Oh, cus!  murmurou, segurando o cesto com as mos sob as dele.  Sinto muito. Muito mesmo. Ele est bem?  Apavorada, olhou para o beb. Mal podia se mover, tamanha a apreenso.  Est machucado? Est bem?  repetiu, fitando o rosto rechonchudo e os olhos fechados de Charlie.
	Calma! Charlie est bem. Nem acordou!  Percebendo o desespero estampado no rosto dela, sossegou-a.  Acredite.
Realmente, ele est bem.
	Mas...  Olhou para a mesa. Apenas o canudo rolara para o cho. O copo e o cesto do beb permaneciam quase nos mesmos lugares.  Pensei...
Respirou aliviada. O beb no correra perigo.
	Voc precisa de ar fresco.
T.J. conduziu-a para fora do restaurante. De repente, Callie viu-se caminhando apoiada no brao dele. Sentindo a rigidez dos msculos do antebrao, por um momento, permitiu-se o luxo de descansar contra aquele slido aconchego.
Voc deve pensar que sou boba  murmurou, recuando alguns passos.
	Claro que no. Talvez algo que eu tenha dito...  T.J. colocou o cesto sobre a muro que separava o ptio do Sea Grape da praia.  Fui inconveniente nos meus comentrios.
	Que bobagem!  Tratou de armar suas defesas novamente.  Desculpe. Pensei que o beb...
	Charlie.  Fitou-a sobre o ombro.  O nome dele  Charlie, Callie Jo.
	Oh!
	Sim, oh!  imitou-a.  No quer me perguntar nada,  Jo? No h nada que queira saber a respeito de Charlie?  mim, depois de tantos anos?  No.
-Confesso que me sinto envergonhado, doura, pois tenho milhes de perguntas sobre voc.  Sorriu.  Como, por exempio, por que veio para c, uma vez que Mullet Cay absolutamente no consta na rota de voos entre Npoles e Tampa?
	No  sussurrou com a voz embargada pelas lgrimas. No consta.
Erguendo os ombros, virou-se para ela.
	Ah, Callie...  Os lbios se curvaram num sorriso parecido a um pedido de desculpas.  Sei que no  da minha conta, mas... por onde tem andado? Ou o que tem procurado?
Ela permaneceu em silncio. Afinal, o que deveria responder-lhe?
	gua sob a ponte, certo?
Callie concordou com um movimento de cabea.
	Bem, Calliope Josephine, como diria o poeta, tenho quilmetros para andar antes de dormir.  Olhando para o filho, acrescentou em voz baixa.  E uma pilha de roupas para lavar.
	Roupas para lavar?  Callie repetiu perplexa. A ideia de Thomas Jefferson Tyler lavando roupas era simplesmente inusitada e surpreendente.
	Sim. Sabe como so os bebs.
	No, no sei.
T.J. encarou-a.
	Ah...  disse e Callie compreendeu que ele tirara suas prprias concluses.
Um silncio reinou entre ambos.
	Bem, no tenho muita pacincia com bebs  ela comentou--- Nem todas as pessoas tm, no  mesmo?
	.  T.J. balanava lentamente o cesto.
Os olhares se encontraram e, apesar da expresso indecifrvel, Callie deduziu que ele interpretara mal suas palavras. Tentou retratar-se.
	O que eu quis dizer  que...
	Hei, no precisa explicar-se. O mundo  muito grande. Nem todos, como voc mesma afirmou, tm pacincia com crianas.
	Tenho certeza de que Charlie  um bebe adorvel acrescentou num tom formal.
	, sim.  T.J. olhou para a criana com tanta fora e possessividade que Callie estremeceu.
Com certeza, seria capaz de matar para proteger o filho.
Um arrepio intenso invadiu-a e o corpo todo tremia de frio. T J viu-a tremendo.
_ No prefere entrar novamente? Sua blusa  fina demais para o ar da noite.	
	Tem razo  falou entre arrepios.  Bem, ja estou indo embora. Foi timo encontr-lo, T.J. E a Charlie tambm  acrescentou. Virando-se, afastou-se em direo ao estacionamento. O rudo de seus sapatos ecoavam no concreto do ptio.
	Eu a acompanho at o carro.  Seguiu-a.  Callie...
	Segurou-a pelo cotovelo com tanta fora, que ela diminuiu os passos.
	Sim?  Apertou a bolsa contra o peito num gesto protetor,
ansiando pela segurana do carro e o anonimato das estradas. Tirou a chave do veculo de dentro da bolsa.  L est meu carro. Sob o carvalho. Azul.
	Pelo que me consta, os carvalhos so verdes, doura ele brincou.
	Meu carro. Azul.
	Claro, claro.  Riu e o som da risada dele cortou o silncio da noite.  Sob o carvalho verde.
Callie tropeou no cascalho do estacionamento. T.J. apertou-lhe o brao com firmeza, impedindo-a de cair. Os dedos dele roaram-lhe o seio. Um pequeno toque, o suficiente para desconcert-la.
Introduziu a chave na fechadura, abrindo a porta do carro. Segura. Sim, estava em segurana.
Callie, espere!
Ela no queria ouvir a respeito de solido. No queria saber nada a respeito de T.J. e solido. No queria saber se o casamento dele fracassara. No, no queria. No podia. Isso transformaria os ltimos quatorze anos numa mentira.
Inclinou a cabea. No tinha certeza se saberia lidar com a solido de T.J. No naquela hora.
Mesmo assim, virou-se para fit-lo. Os dedos fortes dele ainda apertavam seu cotovelo.
Sim, T.J.?
Deixou a porta do carro aberta. Uma precauo. Um refgio.
Acho que no deveria dirigir agora. Parece nervosa, aborrecida... Permita que lhe pague um caf na lavanderia.
No se preocupe. Estou bem.
	Otimo.  Os lbios se curvaram num sorriso maroto. 	Ento, vou reformular o convite. Tampa no est to distante assim e uma vez que voc no est cansada, porque no aceitar aquela xcara de caf, fazendo companhia a mim e a Charlie por alguns minutos? So-Kleen costuma estar vazia nas noites de quarta-feira. A conversa de Charlie  bem limitada. O garoto no tem muito o que falar... Bem, torna-se enfadonho ouvir sempre o som da minha prpria voz. E ento, Callie? Uma hora?
Ela quase sorriu tambm.
T.J. deve ter percebido o rosto desanuviar-se, pois aproximou-se mais. Sentindo a respirao dele no rosto, Callie inclinou-se numa resposta inconsciente quela brincadeira e ao calor que a envolvia.
	Que mal h em concordar, Callie?
Ela se conteve para no explicar aonde residia o mal.
	H muitas coisas sobre as quais precisamos conversar 	T.J. prosseguiu.  Muitos assuntos pendentes. Este encontro inesperado...
	Se voc acredita em destino...  ela murmurou hesitante.
Porm, T.J. estava certo. Havia muitas coisas para serem explicadas. Talvez aquela noite fosse o momento ideal para eliminar os fantasmas do passado. Um novo comeo.
Admitia que havia dbitos para serem saldados. Respirou fundo, preparando-se para enfrentar o inevitvel. De repente, sentiu-se aliviada.
	Lavanderia?
	Sim.  Soltando-a, T.J. fechou a porta do carro, entregando-lhe as chave.  Lavar, secar e dobrar. Se for boazinha, permitirei que me ajude.
	Considere-se um felizardo apenas com a minha companhia, cowboy. Dobrar  tareia, sua, no minha.  Contente por aceitar a brincadeira, Callie descobriu que ainda conseguia sorrir.
	Que maldade!
Callie deduziu que se mantivessem a conversa em nvel amigvel, sobreviveria sem problemas a uma hora ao lado dele. No pretendia navegar em guas turbulentas. Lembrou-se dos livros de contos infantis, onde sempre havia uma advertncia: "Cuidado com os monstros".
	Por que vem  lavanderia a esta hora da noite, T.J.?
	Bem, durante o dia fica lotada e no tenho muito tempo. Uma amiga de Suzy...
O nome ecoou na cabea de Callie.
	Suzy?  indagou sem muita certeza se queria mesmo saber a resposta.
	Minha esposa  esclareceu num tom seco.  Rena est cuidando de Charlie at eu encontrar uma nova governanta.
Callie no se atreveu a fazer a pergunta bvia. No tencionava falar a respeito da esposa dele, porm, no pde evitar de pensar no assunto. T.J. tambm calou-se, perdido em reflexes.
Percorreram a distncia entre o Sea Grape e a lavanderia em completo silncio. Ventava. A noite estava fria e escura, com cheiro de chuva. O som da gua de encontro  areia preenchia o espao entre Callie e T.J., substituindo as perguntas no formuladas e as respostas no respondidas.
Callie no conseguia olhar para Charlie dormindo no cesto.
Quando entraram no So-Kleen, T.J. fez meno de entregar-lhe o cesto. Ela recuou. No pretendia, mas recuou. Se, ao menos, estivesse preparada, teria segurado.
Por um instante, T.J. manteve o cesto estendido na direo dela. Depois, com muito cuidado, colocou-o sobre a bancada de madeira. No fez nenhum comentrio, mas, o brilho nos olhos acinzentados traduziam a decepo.
Arrependida, Callie desejou ter reagido de maneira diferente.
Bem, bem, bem...  T.J. fitou-a, sorrindo com ironia.
Callie sentiu medo.
Estava na mira do caador.

CAPITULO II

O rudo do motor da mquina de lavar, o mo-'vimento das roupas, o som repousante de Charlie sugando a chupeta. Os olhos verdes de Callie no escondiam as emoes reprimidas.
T.J. observava atentamente a expresso dela, tentando organizar os prprios pensamentos.
No compreendia a reao de Callie. Nem mesmo a confisso de no ter muita pacincia com crianas, justificava sua atitude.
Houve um tempo em que tivera.
Porm, as pessoas mudavam.
Com as batidas do corao aceleradas, fitava o rosto plido de Callie, uma mecha de cabelos escapando do penteado absurdamente formal, cujo estilo ele no saberia definir.
No gostara dos cabelos puxados, terminando num coque no alto da cabea. No lhe assentara bem.
Lembrava-se dos cabelos castanhos sedosos, soltos, livres, caindo sobre a pele macia. Lembrava-se de uma Callie alegre e descontrada, andando com os ps descalos por toda a parte.
Notou os sapatos de saltos altos que Callie calava. Bastava um rpido olhar para deduzir que eram de boa qualidade.
As pessoas mudavam, sim.
Callie Jo Murphy no era mais a garota de dezessete anos que ele, Thomas Jefferson Tyler, aos vinte e dois anos, desejara mais do que tudo no mundo.
Ele mudara.
Com certeza, Callie tambm mudara.
Entretanto, no compreendia por que ela no se aproximara de Charlie. Absolutamente, no fazia sentido.
Um enigma. Era em que Callie se transformara.
Descobriu que estava muito, muito curioso a respeito dessa Callie com seus sapatos caros, a blusa rosa de seda e a saia que chegava at os tornozelos. No havia nada naquela mulher elegante e sofisticada que recordasse a garota que conhecera anos atrs.
Callie no olhara para Charlie.
Acariciando a mo do filho, T.J. decidiu no tomar o comportamento dela como pessoal. Para seu prprio bem.
E para o bem de Charlie.
Desta vez, no se precipitaria. As peas se encaixariam naturalmente, no devido tempo. Porm, um demnio interior instigava sua curiosidade.
	Desculpe, doura  comeou, incapaz de disfarar o sarcasmo. Brincava com a mo de Charlie, que parecia rir em cumplicidade.  Deveria ter percebido que no est vestida para lidar com um beb.
	Esta roupa no  minha. Eu...  Os lbios tremeram e ela no completou a frase.
	Sim?  encorajou-a, consumido pela crescente curiosidade.  O que ia dizer?
	Nada.  Ergueu os ombros delgados.
T.J. queria tocar no tecido da saia que cobria as pernas bem-feitas. Em vez disso, prevalecendo o bom senso, envolveu a mozinha infinitamente vulnervel do filho.
Em p, de braos cruzados e de queixo erguido, Callie o fitava com ar de splica. Os dedos brancos apertavam a ala da bolsa.
	De quantas mquinas voc precisa?  ela indagou com voz estridente. Um brilho de angstia anuviava os olhos verdes.
Com uma pontada no estmago, T.J. concluiu que no estava imune aos encantos de Calliope Josephine.
Cinco. Duas para as fraldas  resmungou, pegando uma sacola amarela de dentro do cesto de Charlie. Tirou algumas camisetas do beb.  Voc fica?
	Sim.  No se moveu.  No vou embora. T.J. percebeu o tom de cautela.
	Otimo.  Separou vrias moedas.  A mquina de caf est ali.  Apontou para o final de um corredor formado por mquinas.  Leite e caf. Meio a meio, por favor.
	Eu... OK.  Interrompeu-se antes de completar "Eu sei..."
Colocou a bolsa sobre a mesa.
T.J. observou-a caminhando pelo corredor. O corpo delgado, a cintura, os quadris. Estremeceu, desviando o olhar.
	Diga a seu pai para no se comportar como um tolo, garoto.
Charlie agitou os braos, antes de colocar novamente a mo na boca.
	Nada a comentar? Voc  muito esperto!  Jogou a roupa na mquina, dosou o sabo em p, ligando-a em seguida. Repetiu a operao com as outras mquinas, at esvaziar a sacola amarela.
	T.J.?  Callie chamou-o hesitante.
No a ouvira aproximar-se. Virou-se to abruptamente, que ambos se chocaram. O caf com leite entornou do copo que Callie lhe oferecia, respingando no s na manga de sua camisa, como tambm na saia dela.
	Sua saia!  exclamou.
	Voc se queimou?  Havia ansiedade no modo como Callie levantou a manga da camisa dele.  Deixe-me lavar seu brao.  Conduziu-o at a pia.
	Callie...  Pousou a mo sobre a dela, tentando acalm-la.
Os dedos finos, ainda quentes devido ao copo de caf que trouxera, moviam-se sob a palma da mo de T.J.  O caf no estava to quente a ponto de me queimar. A camisa  lavvel. No se preocupe. Mas, sua saia...
	Oh!  Mal olhou para as manchas marrons.  No temimportncia. Provavelmente, no a usarei mais.
Intrigado, T.J. refletiu que tratava-se de uma roupa cara demais para ser deixada de lado devido a um simples incidente.
	Tem certeza de que no se queimou, T.J.?
	Claro.  Se quisesse responder com honestidade, deveria dizer que sua pele estava queimando, sim, com o calor dos dedos dela.  Estou bem  mentiu com voz enrouquecida.
Pigarreou, limpando a garganta.  Muito bem.
	Voc sempre foi forte, cowboy  murmurou num tom abafado.
T.J. imaginou ter captado uma ponta de ressentimento nas palavras dela. Logo abandonou a ideia, pois isso tambm no fazia o menor sentido. Fitou a boca entreaberta de Callie. Com
a mo livre, tocou os lbios dela, contornando-os com a ponta do dedo. O sangue ferveu, provocando uma vibrao to grande .  quanto as mquinas que trabalhavam ao redor. Ela piscou. Enrubescendo, desvencilhou-se dele.
	Fique com meu copo. Vou buscar outro para mim.  Afastou-se, antes que T.J. pudesse det-la.
Pegou o copo que ela deixara na mesa. Bebeu um gole.
	Meio a meio  sussurrou. Callie ainda gostava de caf com leite. Sorrindo, esperou que ela voltasse.
Algumas coisas, aparentemente, no haviam mudado.
Diante da mquina, Callie observava o lquido cair dentro do copo. Tremia da cabea aos ps, o tecido fino da roupa queimando a pele sensvel e macia.
Lembrava-se de como T.J. a olhara intensamente. E, tremia ainda mais.
Como convencer a si prpria de que o esquecera em todos aqueles anos? Fechou os olhos.
Como pudera imaginar que, mesmo por um instante, conseguiria sentar-se ao lado de T.J. e manter uma conversa razoavelmente normal?
Sabia que no deveria levar essa situao  conta de um impulso. Tivera todas as chances de partir. Desde o momento em que chegara. No, no fora o impulso que a guiara, mas, sim, uma emoo mais perturbadora, emoo essa contra a qual no encontrara defesa naquela noite. E, sem dvida, precisaria de todas as suas defesas.
Se fosse uma pessoa diferente, encararia com enorme senso de humor o modo como se deixava envolver pela evidente atra-o de T.J. por ela. No poderia culp-lo se estivesse se divertindo s suas custas.
Entretanto, o desejo que lera nos olhos dele era sincero e real. Uma necessidade que se revelara no rosto despido de qualquer indcio de sarcasmo. Uma necessidade que T.J. fora incapaz de esconder.
Callie abriu os olhos. Talvez ele estivesse enfrentando os mesmos conflitos.
Com o copo de caf com leite na mo, voltou para a mesa. Encontrou-o com o filho nos braos.
 Deveria ter trazido para Charlie tambm?  brincou.
T.J. sorriu.
	Foi assim que comecei. Uma colher de caf num copo de leite. Mame jura que a culpa  de meu pai, porm, era ela quem permitia que eu experimentasse um gole de sua xcara todas as manhs. Bem, suponho que seja um gosto hereditrio.
	Talvez.  Sentou-se, trazendo a bolsa para mais perto. Com os cotovelos na mesa, apoiou o rosto nas mos cruzadas. Observava o homem embalando a criana. Tentou convencer-se de que as lgrimas que afloraram em seus olhos eram provocadas pelo cansao.
Afinal, tinha todo o direito de sentir-se cansada. No era todo o dia que uma mulher virava de cabea para baixo sua vida bem organizada.
	Aqui estamos ns, Calliope Josephine  T.J. murmurou.  Voc, eu, o vento e a noite.
	E Charlie  lembrou-o.
	Nunca esqueo meu filho.
Callie entendeu o aviso, intencional ou no. T.J. e o filho eram uma s pessoa. Uma unidade. E, na fazenda,  espera de ambos, a me de Charlie. Esposa de T.J.
	Nem eu imaginaria que pudesse esquecer.
T.J. fitou-a por um longo momento antes de responder.
	Ele  parte de mim. Como meus braos ou pernas.
Callie no queria ouvir mais sobre T.J. e seu filho. Com ar de indiferena falou:
	Posso imaginar.
	Pode mesmo?
Endireitou-se na cadeira.
	Olhe, T.J., praticamente criei trs irms e dois irmos. Sim, posso imaginar como se sente.
	Doura, voc no faz a menor ideia do que sinto a respeito do que quer que seja, muito menos com relao a meu filho. De repente, mostrou-se agressivo.  Quantas vezes, nestes ltimos anos, esteve em contato com seus irmos e irms, querida?
Estavam muito prximos do limite das guas. Callie no tencionava question-lo a respeito da inconvenincia do comentrio. Passara o dia  merc das emoes, da lua, das descobertas, mas tinha noo suficiente de quando deveria recuar.
Conhecia o velho ditado: nunca faa perguntas, a menos que esteja bem. certo de querer saber a resposta.
No sabia se suportaria as respostas para algumas de suas perguntas.
T.J. colocou o chapu sobre a mesa. Mais uma vez, fitou-a com intensidade.
Ela estremeceu.	:
A primeira mquina concluiu seu trabalho.
Como se voltasse  realidade, T.J. olhou para o relgio.
	h, cus! Hora da mamadeira de Charlie.
Colocando o beb no cesto, tirou uma lata e uma garrafa de outra sacola. No pediu a ajuda de Callie. Tampouco ela esperava que pedisse depois de sua reao chocante.
Entretanto, no poderia permanecer sentada, indiferente, observando-o lidar com o leite em p e a garrafa.
Tambm no poderia alimentar o filho dele, aconcheg-lo, pousar a pequena face rosada prxima ao seu corao.
Ergueu-se.
	Alimente o beb. Deixe que coloco as roupas para secar.
	O problema  meu, Callie. No seu. Convidei-a para fazer-me companhia, no para trabalhar.  Olhou-a enquanto colocava o leite em p na garrafa.  Posso me arrumar sozinho.
	Sei. Sempre foi capaz de fazer tudo sozinho, T.J. Um modelo impecvel de auto-suficincia. Nunca precisou de ajuda.
 Consciente do tom spero com que proferira tais palavras, tentou amenizar.  Alm disso, nunca fui muito til.
	Que bobagem, Callie!  Suspirou. Os sinais de fadiga que ela notara quando o vira no Sea Grape, surgiram de novo ao redor dos olhos dele.  A despeito do que acredita, nunca a considerei assim.
	No?  Callie recordou-se de seu eterno comportamento infantil. Mulher-criana. Lembrou-se tambm dos olhares indulgentes que escondiam pesar. Um pesar incapaz de suportar. Pesar polidamente escondido, mas que feria seu orgulho. Nunca comentara isso com T.J.
No queria que ele soubesse o preo que pagara pelo tempo que passaram juntos.
	Nunca, Callie. Juro.
A segurana contida na voz dele despertou velhas mgoas que julgara enterradas para sempre. Mesmo que jamais soubesse, T.J. sempre exercera um poder to grande sobre ela, que reduzia a p todas as suas defesas.
	OK. Melhor assim.
	Callie, sente-se, por favor. As roupas podem esperar alguns minutos.
	No. Precisa alimentar Charlie. Alm disso, se pretende voltar  fazenda, tem um longo caminho pela frente. E tarde...
	Pare!  Ergueu-se com Charlie no colo. Depois de tomar a mamadeira o beb dormia calmamente com o rosto apoiado no ombro do pai.
	Desculpe. S queria ajud-lo.
	Callie, oua. No pretendia mago-la.  Balanou a cabea. Havia um toque de frustrao naquele gesto.  No era minha inteno remexer em velhas feridas. Creio que no consegui me controlar. Ou no quis. No sei.  Embalava Charlie num movimento de corpo quase inconsciente,  Esperava que pudssemos conversar. Admito que estou muito curioso a respeito de sua vida. Gostaria de ouvir o que tem feito nestes ltimos anos, nada mais. J passou tanto tempo, Callie... Gostaria... Bem, passado  passado, no  mesmo?
As palavras dele ressoaram em seu corpo, em sua pele, nos ossos, no sangue, provocando ondas de recordaes e ressentimentos. No poderia dizer que nunca pensara nele. Queria contar-lhe quantas vezes vira seu rosto em sonhos, em pesadelos. No queria que pensasse que ela no lhe dedicara um pensamento sequer.
Mas, no ousava falar.
T.J. estava certo. Passado era passado. Assim como as agulhas de um tear urdiam as tramas at estas se transformarem no tecido, o passado criava o presente. E, Callie sempre soube que jamais poderia voltar atrs.
	Parece que estamos caminhando sobre espinhos, T.J. disse, por fim.  Talvez seja impossvel conversarmos amigavelmente. No sei.
	Nunca fomos amigos.  Uma sombra anuviou os olhos dele.
	No, nunca fomos amigos.  Ela hesitou. Tateando sobre a verdade, colocava-se diante de duas opes. Enfrentar abertamente as imagens do passado compartilhado com T.J. ou partir antes que tudo se despedaasse dentro dela.
De repente, desejou desaparecer daquela lavanderia para esconder-se sob os lenis de algum hotel distante e desconhecido, apagando de sua memria o encontro com T.J. Como se adivinhasse seus pensamentos, ele pediu:
	Fique um pouco mais, Callie. Por favor.
Ela e T.J. Os dois sozinhos na lavanderia. No, os trs. Olhou ao redor. As sacolas vazias. As roupas para serem secas e dobradas. O longo caminho de volta  fazenda.
	No deveria. Porm, detesto a ideia de deix-lo com tudo isso...  Apontou em direo s mquinas.
	Por que, Callie? J discutimos sobre isso... No se preocupe. Sempre lavei minhas roupas. Nunca precisei de uma boa samaritana.
Por trs daquelas palavras, Callie percebeu que T.J. era um solitrio.
	Afinal, o que quer de mim, T.J.?
	Outra voz na noite. Uma companhia depois de um dia exaustivo.  Ninando Charlie nos braos, suspirou.  Nada
mais, Callie. Um pouco de prosa, algumas risadas. Se conseguirmos, claro.  Movimentou a cabea, sorrindo.  Depois, seguiremos nossos caminhos separados.
Callie enrubesceu com o comentrio. O homem que conhecera jamais fora to franco.
	Sabe de uma coisa, Thomas Jefferson Tyler?  Callie passou as mos na saia manchada.
	O qu, doura.
Se no estivesse atenta, poderia at confundir o cansao contido na voz dele com um tom imaginrio d carinho.
	Voc  um bem falante, isto sim! Com essa conversa toda, seria capaz de convencer at mesmo uma galinha!
	Que ideia, Calliope Josephine!  Ele sorriu, os olhos brilharam, afastando a sombra de cansao.  Por que faria isso?
	Ora, cowboyl  Riu.  Sei que sua me leciona ingls na universidade. Ela jamais permitiria que chegasse a tais extremos!
	Sim!  Ele riu tambm.  Alm do mais, os cowboys devem manter uma imagem mstica, doura.
Charlie ainda dormia tranquilamente no ombro do pai. A mo dele parecia grande demais acariciando a cabea do beb. Aquela imagem a emocionou. Decidiu mudar de assunto.
	Como est sua famlia? Seus irmos?
	Decidiram mudar-se para o estado de Washington depois... bem, depois que assumi o controle da fazenda. Alegaram cansao por verem o mesmo pr-do-sol h cinquenta anos.
	Est brincando!
	Verdade! Disseram que j estavam prontos para assistirem um pr-do-sol diferente a cada dia.
	Pensei que sua famlia ficaria em Tarpon City para sempre. Nunca imaginei que sassem daqui. Buck tambm foi embora?
	Ele tinha outros interesses mais importantes. Hank aparece esporadicamente, contando suas aventuras de arrepiar os cabelos.  T.J. ergueu as sobrancelhas, denotando compreenso.  Irmos mais jovens! Bem, ainda assim, costumamos nos reunir na fazenda durante os feriados prolongados. Como v, fui o nico que se manteve envolvido com os problemas domsticos.
Callie no respondeu. Em sua mente, visualizou a imagem de uma mulher cozinhando, limpando a casa, rindo entre os membros da famlia de T.J.
Uma mulher embalando Charlie junto ao peito.
	Buck est em Lake Okeechobee, visitando Sarah Jane. Lembra-se de nossa prima, no?
	Claro! Fomos colegas de classe. Gostava muito dela.  Callie sentia que a amizade de Sarah Jane era sincera. Nunca notara nenhum indcio de pena em seus olhos.  Como est ela?
	Casou-se, foi para o Oriente Mdio, onde sofreu uma experincia terrvel.
Callie tentou imaginar que tipo de homem uma menina travessa como Sarah Jane escolhera para marido.
	Por qu?
	Houve um conflito poltico no pas onde viviam e... bem, no conheo bem os detalhes, mas o resultado foi que o cafajeste sequestrou o prprio filho quando Sarah Jane e o beb embarcavam no ltimo vo que deixaria a cidade de volta para os Estados Unidos. Ele arrancou a criana dos braos de Sarah Jane, saiu do avio, desaparecendo em seguida. O avio decolou sem que Sarah Jane pudesse fazer nada. Nunca mais se soube deles at minha prima receber a notcia de que ambos estavam mortos. Depois disso, ela se isolou de todos.
	Que coisa horrvel! Pobre Sarah Jane!
	Sim, foi terrvel. Nunca permitiu que a ajudssemos. Vive sozinha no lago, administrando seu camping de pesca. s vezes, Buck a visita.  T.J. ajeitou Charlie no outro ombro, continuando a embal-lo.  Soubemos, atravs de Buck, que uma noite um homem chamado Jake apareceu com um garoto, afirmando que o menino era filho de Sarah. Contou que, numa tentativa de fuga, Ted fora morto e que ele, Jake, conseguira sair do pas, voltando para os Estados Unidos com o menino. Callie olhava-o perplexa.
	Que histria mais incrvel! O menino era mesmo o filho de Sarah Jane? A criana que julgara morta?
	Sim.  Afagava as costas de Charlie.  E mais. Sarah Jane acabou casando com o tal de Jake.
	No!  exclamou, encantada com o que ouvira.  Como ele ?
	No o conhecemos. Somente Buck, que limita-se a comentar que o novo marido de Sarah  muito interessante. Voc sabe, Buck sempre foi muito crtico e exigente. Se afirma que gostou de Jake Donnelly, ento, para ns j  suficiente.
Buck era meio irmo de T.J., dois anos mais velho.
	Ainda bem.
	J  alguma coisa, no?  T.J. esticou as pernas, deitando Charlie no colo.  Hei, garoto! No acha que est abusando de mim?  O beb ergueu os bracinhos, emitindo sons ininteligveis. T.J. afagou-o.
O automtico da secadora desligou. Callie caminhou at a mquina com uma sacola nas mos, onde colocou a roupa seca. Sentiu um aperto no corao ao pensar em Sarah Jane. Imaginou o quanto sofrera e na felicidade indescritvel ao reencontrar o filho que julgara morto.
Sorte de Sarah Jane.
Entretanto, nem por um instante invejou a felicidade da antiga companheira de escola.
Nem poderia. Sarah sofrera demais. E Callie aprendera que vida e felicidade raramente se conciliavam.
A mgoa crescia dentro de seu peito  medida que voltava para perto de T.J. e seu filho. Sim, avaliava os sentimentos de Sarah Jane, o enorme vazio que tomara conta de seu ser pela perda do filho. Gostaria de imaginar tambm a alegria dela ao deparar com o filho vivo, mas no conseguia.
Durante muito tempo ainda pensou em Sarah Jane e no milagre que recebera.
Pingos comearam a cair sobre o telhado da lavanderia. Cheiro de chuva e mar se misturaram, como uma ddiva refrescante e abenoada para a terra.
Um comeo ameno, afinal.
Em silncio, temendo quebrar a magia daquele momento, com o som da chuva leve sobre as pedras do estacionamento da lavanderia, Callie tirou a roupa da sacola, dobrando-a lentamente.
Separando. Dobrando. Callie estava estranhamente satisfeita. A fragrncia da roupa limpa pairava no ar. Os murmrios de T.J. brincando com Charlie eram relaxantes, quase hipnticos.
Uma camiseta azul surrada de T.J. caiu ao cho. Callie abaixou-se para peg-la. Os dedos amarrotaram a camiseta quando, ao erguer a cabea, seus olhos encontraram os dele.
Imersa nos pensamentos, no notara que T.J. colocara Charlie no cesto e que a fitava intensamente.
	Voc  muito carinhoso com ele  Callie apressou-se a dizer, tentando desviar a concentrao perscrutadora de T.J.
Dobrou a camiseta com cuidado.
Aproximando-se, segurou-a pelo pulso, erguendo-lhe a mo esquerda. As esmeraldas e os diamantes luziram. Ele sorriu.
	Muito bonito, querida  murmurou Com voz suave. Balanou a mo dela, de modo que as pedras brilhassem, refletindo a luzes da lavanderia.
Callie tremeu da cabea aos ps. No reconhecia aquele T.J. Um estranho com olhos frios, semicerrados. Olhos to duros e brilhantes quanto as pedras que adornavam seus anis.
	No!  Recuou alguns passos, porm, ele a segurou com mais fora.
	Fugindo de novo, querida?
A intuio de Callie dizia que T.J. conduzira os acontecimentos para que culminassem naquele momento de confrontao. Sentindo que chegara a hora da verdade, permitiu que sua guarda casse por terra.
T.J. viu os olhos de Callie se arregalarem, a dor anuviando as feies-bonitas. Se no estivesse to furioso, at que poderia desistir, deixando-a em paz. Entretanto, sabia que era impossvel. Era como se, de repente, sentisse o perfume das madressilvas daquela longnqua noite de junho, como se tivesse toda sua vida pela frente em companhia de Callie Jo Murphy.
Inclinou-se. Os rostos estavam to prximos que Callie cerrou os olhos castanhos.	
 J se tornou um hbito para voc, no  querida?  com a mo livre apertou-lhe o queixo quase com violncia, traindo uma fria que jamais imaginou sentir.  E ento, Caliope Josephine Murphy, a quem deixou esperando no altar desta vez? Escreveu, pelo menos, um recado para esse tolo, doura?

CAPITULO III

Callie dobrou a camiseta de T.J., colocando-a 'na pilha de roupas.
	Creio que no lhe devo explicaes, porm, apenas para satisfazer sua curiosidade, escrevi, sim, uma carta para James.
A voz soou firme, mas T.J. percebeu que ela lutava ferozmente para manter o autocontrole.
Queria aproveitar aquele momento de fraqueza de Callie. Talvez devido ao brilho de desafio que lera nos olhos dela, talvez pela sua postura de indiferena, a verdade era que, de repente, sentiu uma vontade imensa de atingi-la de alguma forma. Queria mago-la, feri-la, v-la chorar. Queria derrubar as barreiras, destruir aquele ar desafiador que o mantinha a distncia.
No entendia o prprio comportamento. No aprovava essa inteno srdida, porm, de uma coisa tinha absoluta certeza. Desta vez, no permitiria que Callie simplesmente desaparecesse sem nenhuma explicao.
	Ah!... James, no Jim. Ou Jimmy. Certamente, jamais Jimbo. Sim, quase posso visualiz-lo em cada minuto, Callie.
James. Bonito nome, querida. To bonito quanto estas adorveis provas de afeio.  Tocou os anis de diamantes e esmeraldas.  Suponho que sejam provas da afeio desse James, no?  Os lbios se curvaram num sorriso irnico.  E que prova, Callie! Aposto como as pedras so verdadeiras!
	Pare, T.J. Pare com isso!  Desvencilhando-se, dobrou um macaco de Charlie.  No precisa ser to sarcstico.
Ele bateu a mo sobre a mesa. A pilha de roupas tombou para um lado.
	OK. Ento, vou direto ao assunto. Por que fugiu, deixando-me  sua espera na igreja, sem jamais me escrever uma carta para eu saber se estava viva ou morta?
Caminhando em direo s secadoras com um cesto vazio, Callie ignorou a pergunta. T.J. agarrou-a pelo brao, obrigando-a a voltar-se. O cesto caiu ao cho.
	Responda, Callie  insistiu. Ela mantinha os olhos baixos.
Desgostoso com sua atitude, largou-a.
Abaixando-se, Callie pegou o cesto. Sua expresso era enigmtica. Com passos decididos, aproximou-se das mquinas. T.J. seguiu-a.
O calor de sua ira parecia diminuir. Surpreendeu-se com a fora com que apertara o brao de Callie. No gostava de ser levado pelas emoes. Raramente perdia o controle, como acontecera naquele momento. Preferia lidar com seus sentimentos por meio de brincadeiras, evitando atos de violncia. Queria saber as respostas e no agredir Callie.
Ela retirou as roupas das secadoras, colocando-as no cesto. S depois, ento, fitou-o.
	Eu tinha apenas dezessete anos. Era uma criana.
	Voc sabe muito bem que isso no  desculpa, Callie.
	No?  A voz era apenas um fio, traindo o esforo para manter-se controlada.  Pensei que estava lhe dando uma explicao. No sabia que soaria como uma desculpa. Perdoe-me.
	Sim, ambos ramos crianas. Porm, jamais a deixaria esperando na igreja sem um motivo justo ou sem uma explicao.
	Voc estava com vinte e dois anos, T.J. J terminara o colegial e estava prestes a alistar-se no exrcito. No era mais uma criana! J tinha seus planos para o futuro.  Voltou rapidamente para a mesa. Tirava as peas do cesto dobrando-as com gestos rpidos e precisos, talvez, movida pela raiva ou qualquer outra emoo que T.J. no conseguia identificar.
Callie continuava reservada e inacessvel, o que o irritava profundamente.
	Claro, eu tinha planos... Acreditei que ambos os compartilharamos. Fiz mal? Afinal, tanto quanto eu, voc tambm se mostrava entusiasmada. E nunca deu o menor indcio de que sonhava com algo diferente.
	No?
T.J. passou as mos nos cabelos.
Sei que no, Callie.
Ela ergueu os ombros.
	... suponho que esteja certo. Mesmo assim, fui embora. --Ajeitou a pilha de roupas e, com cuidado, colocou-a na sacola.
	Mas, repito, tinha apenas dezessete anos. Era pouco mais do que uma criana e crianas no se casam, T.J.  Fitou-o. Mechas dos cabelos sedosos caam sobre o rosto. Ela as afastou.
	Fui muito cruel. No pretendia mago-lo.

	Pretendia, sim, Callie. E, tambm, extrapolou o direito de ser cruel  acrescentou com a inteno de provoc-la at que revelasse tudo o que se recusava a contar.
	Estava aterrorizada.
	Conte outra piada, doura  zombou.  Pelo que me consta, seu nico gesto de covardia foi deixar-me esperando na igreja feito um tolo. Voc nunca teve medo de nada, Callie.
	Talvez no me conhecesse to bem quanto imaginava. ---Suspirou.  De qualquer modo, T.J.., tudo isso  passado.
	Ergueu as mos.  Peo desculpas.
T.J. a fitou, pensativo. De novo, a sensao de enorme vazio. Por fim, respondeu:
	No acha que um pedido de desculpas soa um tanto quanto pattico, doura?
	Talvez. Mas,  o mximo que posso fazer. O que mais quer de mim, T.J.?
	No sei o que quero, doura. Porm, um pedido de desculpas me parece muito pouco, principalmente, depois de tantos anos.
	OK. Voc tem todo o direito de estar furioso comigo. De odiar-me at. Entendo perfeitamente seu ponto de vista.
	Callie querida, voc est se mostrando to compreensiva, to paciente que, confesso, estou morrendo de curiosidade para saber o motivo de tanta amabilidade.
Ela sorriu.
	Nada de mais. Estou simplesmente tentando agir de modo civilizado diante de uma situao difcil.  Uma mecha de cabelos caiu sobre os lbios. Afastou-a com as costas da mo. Alguns fios permaneceram na face, prendendo a ateno de T.J.
Enterrou as mos nos bolsos da cala jeans, a fim de conter a tentao de toc-la de novo.
	Oh, sim. Concordo que um comportamento civilizado seja uma prioridade para se viver bem. Entretanto, seu... comportamento civilizado soa to superficial, to afetado...
	Desculpe, desculpe  ela murmurou. : Estou apenas tentando lidar da melhor maneira possvel com uma situao extremamente difcil. No sei o que fazer.
	Tem razo. A situao  complicada, confusa mesmo.
Para voc aparecer depois de...
Ela o interrompeu.
	Na verdade, no esperava encontr-lo esta noite.
	Ora, Callie, o que esperava encontrar neste seu trajeto maluco entre Npoles e Tampa?
Callie balanou a cabea.
	No sei. Nada. Entrei no carro e comecei a dirigir. Para qualquer lugar. Sem destino. No estava raciocinando.
	Voc agiu como se fssemos meros conhecidos e no...
	J lhe disse. No sabia como agir!
Quando a viu pressionar o rosto com as mos, quase sentiu pena, mas no se deixou levar pela emoo.
	Na minha opinio, agir com tanta amabilidade  uma maneira de evitar confrontos.
	O que posso dizer, T.J.? J pedi desculpas, j admiti que me comportei muito mal, que fui cruel.  Abrindo os braos, quase gritou.  O que mais posso fazer?
	Boa pergunta, Callie. Se, ao menos, eu soubesse a resposta...
	Por que no esquece o assunto, T.J.? J se passaram tantos anos... Que importa se me comportei como uma adolescente estpida? Nesta altura da sua vida que importncia ter o que aconteceu h tanto tempo?
	Creio que nunca imaginou que, um dia, se depararia com o passado. E exatamente o que desejava, no, Callie? Que, assim como voc, sasse daquela igreja e nunca mais pensasse em tudo o que aconteceu?
	No.
Callie empalideceu mas, decidido a obrig-la a falar, T.J. continuou impiedosamente.
	Aposto como pensou que, depois de rirmos muito do acontecido, encerraramos o assunto, esquecendo por completo aquele vero. E, mesmo que nos reencontrssemos, como aconteceu nesta noite, jamais lhe cobraria explicaes.
Callie suspirou , quando falou, o tom enrouquecido perturbou-o.
	Oua, T.J. Sei que no agi corretamente e estou tentando de todas as maneiras me desculpar. Sei tambm que no  nada fcil para voc aceitar meus pedidos de desculpas. Mas, o que est feito est feito. No posso mudar o que fiz to...  Calou-se, escolhendo as palavras. T.J. a olhava ansioso.  ... to descuidadamente. Creio que no h mais nada para fazer ou dizer.
	Certas coisas no se resolvem com tanta facilidade assim, Callie. Sinceramente, no acredito que encare o passado com tanta indiferena.
	Por que se preocupa tanto com o passado?  Estendeu a mo na direo de Charlie.  Afinal, voc no desperdiou sua vida por causa de uma garota cruel, covarde. Uma menina volvel e inconsequente, mas que nunca o considerou um bobo. Ou um tolo.  Afastando os cabelos do rosto, fitou-o com o queixo erguido.  O que aconteceu entre ns no foi importante. Voc continuou vivendo. Construiu uma famlia. Tem um filho.  Mais uma vez, evitou olhar para o beb.
T.J. suspeitava o quanto lhe custava evitar olhar para Charlie.
Os msculos retesados do rosto traam as emoes que a envolviam. Ainda assim, Callie mantinha a expresso calma e fria.
Compreendendo que no conseguiria derrubar as defesas de Callie por esse caminho, T.J. decidiu mudar de ttica.
	Notei que no perguntou a respeito de minha esposa, Callie.
A pergunta inesperada atingiu-a em cheio. Aps um segundo de hesitao, recuperou-se.
	OK. Fale-me sobre ela, T.J.  Sorriu amistosamente. Quando se casou?
	H oito anos. Tinha vinte e oito anos e Suzy vinte e quatro. Ao contrrio de voc. no era mais uma adolescente.
	Oh!
	Sim.
	Charlie tem irmos mais velhos? Irms?
	No. O que mais gostaria de saber?  Com passos lentos, aproximou-se de Callie, que recuou.  No quer saber como ela era? Como ria? O que murmurava quando estvamos a ss?  Sentiu-se satisfeito quando ela, apoiando-se na mesa, baixou a cabea.
Callie desejava tapar os ouvidos para no ouvir mais nada.
	Por favor, T.J. No. Isso  maldade.
	Maldade?  Abrindo os braos, prendeu-a contra a mesa.
As pernas se tocavam. Callie tentou afastar-se, mas no havia espao. Sentiu-se totalmente dominada pelo poder de T.J.   maldade o que estou dizendo, Callie?
Ela concordou com um movimento de cabea.
	Sim. Voc no tem o direito de me tratar assim. No gosto disso. No  justo.
	Verdade?  Ora, a vida no  justa, querida. Com certeza, Suzy no achou justo um motorista bbado ultrapassar o sinal vermelho e mat-la, trs semanas depois de dar  luz Charlie.
	Afastou-se abruptamente, parando ao lado do cesto do beb.
	Nem tudo na vida  justo, Callie.  Pegou nos braos o filho adormecido. Voltou para junto dela e, com uma das mos segurou-a pelo queixo, obrigando-a a fitar a criana.  Olhe bem para o meu filho, Calie. O que v?
Poderia ter fechado os olhos. Por covardia, j evitara olh-lo antes, mas tivera suas razes. Desta vez, no haveria desculpas para esquivar-se. Fitou-o. Em princpio, com relutncia. Depois, totalmente encantada com a criana que dormia tranquilamente.
Soltando-lhe o queixo, T.J. mostrou a pulseira de ouro no brao d Charlie.
	Charlie  diabtico, Callie. No, no me venha falar em justia!
	Oh, T.J.!  Callie exclamou, tocando o beb pela primeira vez. Acariciou as faces rosadas.  Oh, Charlie.  Emocionada, chorou.
Sabia como seria a vida de Charlie, as complicaes que enfrentaria. Atravs das lgrimas, visualizou as marcas de cansao no rosto de T.J. Encravados nessas linhas, notava o profundo amor pelo filho e a dor pela perda da esposa. Pousou a mo na face de T.J.
	Sinto muito, T.J.
Por um longo momento, permaneceram juntos e em silncio.
	Muito bem.  T.J. afastou-se com o filho.  No pretendia contar-lhe tudo isso. Esta foi uma noite cheia de surpresas para ambos, no, doura?  Colocou Charlie no cesto.
	Por que no queria que soubesse sobre a doena dele?
	Primeiro, porque voc vai embora dentro de algumas horas. Depois, porque a doena de Charlie no  problema seu.
	Tem razo. No  problema meu.
	Desde o instante em que a vi no Sea Grape, senti esta necessidade idiota de provoc-la. No poderia permitir que sasse novamente de minha vida sem me dar algumas respostas. Deixei-me levar por um impulso e pela curiosidade quase in-controlvel de saber o que fazia aqui e por que voltara depois de tantos anos. Callie riu.
	Qual a graa?
	Juraria que foi a lua cheia desta noite quem nos levou a seguirmos nossos impulsos.  Callie caminhou at a porta da lavanderia. Olhou para o cu escuro e chuvoso.  Negativo.
Nem sinal de lua.
Os olhos de T.J. brilharam.
	Doura, acredite-me, em algum lugar, esta noite, h uma lua cheia!
As emoes reprimidas durante todo o dia, soltaram-se diante do comentrio. Callie no conteve o riso.
	Desculpe. No h nada de engraado, mas...
	Sim, eu sei. No  engraado, mas, sim, uma lamentvel verdade  ele respondeu, rindo tambm.
Riram muito, at s lgrimas.
	Psiu...  Callie murmurou, enxugando os olhos com as costas da mo.  Assim, acordaremos Charlie.
T.J. olhou-o.
	Ele est dormindo.
	Charlie  to novo... to pequenino.
	Seis meses. No to pequeno. Alm disso,  uma criana forte.
Na resposta rpida, Callie notou o orgulho na voz de T.J., o instinto de pai em defesa do filho.
	Realmente. Voc fez um belo trabalho, T.J. Deve sentir-se orgulhoso.
	Orgulhoso?  Ergueu os ombros.  Por qu? Por amar meu filho? Por cuidar dele? Suponho que seja o mnimo que posso fazer. Quem mais ele tem no mundo?
	Tem a voc.
	Sempre ter. Farei tudo para proteg-lo.
Devido ao seu trabalho, Callie via pais de crianas que sofriam de doenas crnicas lidarem com seus temores e preocupaes de maneiras diferentes. No havia certo ou errado. Cada pai ou me procuravam fazer o melhor possvel para conviverem com a realidade. Alguns eram capazes de encararem a
doena como uma parte de suas vidas. Outros, simplesmente no se conformavam e jamais assumiam o inevitvel.
Entristeceu-se ao imaginar T.J. voltando para casa todas as noites sozinho com Charlie. A casa da fazenda era muito grande. Uma casa grande e solitria abrigando somente T.J. e o filho.
T.J. deveria ter muito trabalho, alm de cuidar do filho. A figura da mulher que imaginara na vida de T.J. desaparecera. Sobrara apenas a casa escura e vazia.
	Voc no tem ningum para ajud-lo? E sua me?
	Bem, voc conhece mame. Se pudesse, teria vindo no primeiro vo. Porm, est se recuperando de uma operao.
Como j expliquei, est situao  temporria. Pretendo contratar uma governanta.  Movimentou a cabea, como se quisesse ordenar os pensamentos.  Enquanto isso, trago Charlie para Rena, que cuida dele.
	Entendo.  Callie jogou os copos de caf na lata de lixo.
Caminhou at a porta da lavandeira e observou a chuva. Estendeu a mo, deixando que os pingos molhassem sua pele.
O dia fora claro, brilhante, ensolarado, mas a chuva lembrava uma noite de inverno.
T.J. parou a seu lado. O calor que emanava do corpo dele, absorveu o ar frio. Olhando para o estacionamento, falou:
- Continua chovendo. Assim que chegar  fazenda ainda terei que cuidar dos animais.
	E eu preciso ir para...
Ele a interrompeu com um sorriso irnico.
	Para Tampa ou outro lugar qualquer. Acertei?
	Outro lugar qualquer  concordou, admitindo sua mentira.
T.J. no precisou pedir-lhe para olhar Charlie, enquanto colocava as roupas limpas na caminhonete. Haviam chegado a um acordo mtuo de paz.
Uma pontada de culpa a incomodou. Se no soubesse sobre a doena de Charlie, se no tivesse notado os sinais de fadiga no rosto de T.J.., jamais chegaria a esse ponto. Fitando a mo molhada pela chuva e lembrando do rosto rosado de Charlie, concluiu que ignorar certos fatos era muito menos doloroso.
O sentimento de culpa crescia em seu peito, machucando mais do que nunca. Na verdade, convivera com ele durante anos. Um pouco mais no a mataria. Com certeza.
T.J. voltou com a caminhonete, estacionando-a o mais prximo possvel da porta. Depois, voltou correndo para a lavanderia. Passou a mo pelos cabelos molhados.
	Pode usar minha bolsa para proteger Charlie da chuva ela ofereceu.
	E voc? Eu a levo de caminhonete at seu carro.  Apontou para os sapatos dela.  No resistiro  primeira poa de gua!
	No se preocupe.  Estendeu-lhe a bolsa a fim de cobrir o cesto do beb.  No me importo.
	Callie, fao questo.
	OK. Obrigada.
Correu, abrindo a porta do veculo para T.J., que colocou o cesto no meio do banco. Em seguida, Callie sentou-se. Quando T.J. acomodou-se ao volante, ela teve a impresso de que a cabine era pequena demais para seus ombros largos e fortes.
Novamente, a sensao de culpa parecia aumentar. Os pensamentos danavam em seu crebro. Queria que T.J. dirigisse bem devagar, para poder pensar e amadurecer a ideia que surgira em sua mente, antes de descer da caminhonete.
Porm, em segundos, T.J. estacionou ao lado do carro dela.
Olhava fixamente para frente, lembrando de sua casa vazia e solitria. Uma casa. No um lar. Sem vizinhos para lembr-lo que, caso precisasse de ajuda, rio estaria sozinho. , No desligou o motor. O perfume de Callie misturava-se com o cheiro de chuva. Respirava profundamente, enchendo as narinas com aquela fragrncia. Sabia que no suportaria v-la sair, fechando a porta atrs de si. Ela no iria para algum lugar perto da costa oeste da Flrida. No correria o risco de encontr-lo de novo. Poderia no saber tudo a respeito de Callie, porm, tinha a certeza de conhec-la melhor do que ela prpria imaginava.
Fitou-a. Os olhos de Callie pareciam anuviados e misteriosos na escurido da cabine. Os mamilos sobressaiam-se sob a blusa molhada. Apertou o volante com fora, controlando-se para no acarici-la.
Seu estmago se contraiu. No queria que Callie partisse.
	Callie...
	T.J...  ela falou ao mesmo tempo.
	No v para Tampa esta noite.
	O qu?
	Venha comigo para a fazenda. Sei que no tem planos definidos. Por que no me ajuda a cuidar de Charlie? At chegar a nova governanta.  T.J. falou sem pensar, porm, quando um pesado silncio os envolveu arrependeu-se imediatamente.
Antes que Callie respondesse, ele acrescentou:
	Foi uma ideia maluca, arrogante, inconveniente e oportunista. Desculpe. Esquea tudo o que disse. A chuva perturbou meu crebro. Nem sei por que pensei nisso.  Mas ele sabia o que perturbava seu corpo. Sabia tambm, e muito bem, o que estava pensando. Agira como um tolo. Estendeu a mo para ela.  D-me as chaves. Abro o carro para voc.
	No tenho planos. Por isso parei aqui na ilha.  A voz soou como um murmrio quase abafado pelo rudo da chuva.
	Voc viria comigo?  O sangue latejava nas tmporas.Por qu?
Ela riu.
Por que no?
Ainda inseguro, insistiu:
	Por que aceitaria ir para a fazenda assim...  Estalou os dedos._ To de repente?
	Voc me pediu.
	Sim, pedi. Disse, tambm, que era uma ideia maluca.
	Ambos concordamos que esta era uma noite de impulsos. Hesitando, tocou no cesto de Charlie.
	No preciso de ajuda. Mantenho tudo sob controle.
	Sei disso. No decidi aceitar seu convite por pena, acredite. Talvez, tenha minhas razes. Talvez, queira fugir da minha vida por alguns dias.
	Voc no me contou sobre sua vida, Callie. Por que quer fugir?
Ela esquivou-se da resposta.
Digamos que no queira dirigir at Tampa esta noite. Ou para outro lugar qualquer. Est chovendo. Nunca tive muito senso de direo. Poderia me perder. Quem sabe? Que importa?Encolheu os ombros.
Independente do que Callie dissesse, T.J. sabia que as razes pelas quais mudara de ideia poderiam ser muito importantes.
O corao pedia que partisse o mais rpido possvel com Callie, sem multas perguntas. Porm, tinha responsabilidades que pesavam naquela deciso.
	Voc mesma afirmou no ter muita pacincia com crianas  lembrou-a.  No pode obrigar-se a cuidar de Charlie. Ele exige muitos cuidados, muita ateno.
	Voc me ensina. Poder deixar as instrues por escrito.
Aprendo fcil. Saberei como lidar com Charlie. Confie em mim.
Por que, Callie? Por que deveria confiar em voc?
Acendeu a lmpada sobre o espelho retrovisor. Precisava ver a expresso dela. Com a claridade, Callie piscou. Havia crculos ao redor de seus olhos. Sombras. Parecia transtornada. Todo bom humor contido em sua voz transformava-se numa mentira diante do rosto plido e tenso.
Doura, no quero ser rude, porm, voc tem o pssimo hbito de fugir da raia. Quem me garante que no fugir mais uma vez, abandonando meu filho?

CAPITULO IV

T. J. no se surpreendeu com a resposta de Callie.
No o culpo por no confiar em mim. Que mais ela poderia dizer? Mesmo que jurasse solenemente sobre a Bblia, sempre haveria um resqucio de dvida.
Callie, no deveria t-la convidado para voltar conosco  Fitaram-se por um longo momento.  Realmente, foi uma pssima ideia  acrescentou, apagando a luz.
Em silncio, Callie virou-se para abrir a porta do carro. Depois, voltou o rosto para olh-lo. Suas feies confundiam-se com a escurido, porm, a voz fria e o queixo erguido num gesto de desafio, transmitiam uma mensagem clara, obrigando T.J. a ouvi-la atentamente.
	H quatorze anos, cometi um erro. Nunca tive coragem para repar-lo. Permita-me resgatar meu dbito antigo. Devo-lhe isso. Carrego um sentimento de culpa pesado demais. Gostaria de alivi-lo um pouco.
	Quer retratar-se por ter-me deixado plantado feito um bobo no altar?
	Que outro motivo eu teria?
Charlie choramingou, mas continuou dormindo.
No quero colocar a vida do meu filho em risco, Callie.
	Posso deixar meu carro aqui. Fique com as chaves.
Ele no entendia os motivos de tanta insistncia.
	No se humilhe tanto, Callie.
No estou me humilhando. Mas o faria se isso pudesse mudar o passado.  Entregou-lhe as chaves do carro.
T.J. empurrou a mo dela. As chaves caram no cho da cabine.
	No quero.
	Charlie precisa de cuidados. Aceite minha ajuda.  Tocou-lhe o pulso. T.J. sentiu os plos do brao arrepiados.  Ele no pode viver de um lugar para outro. Precisa de estabilidade, de rotina.
Ergueu as sobrancelhas com ar indagador.
	Como sabe tanto a respeito de diabete juvenil, Callie?
	Sou representante de produtos hospitalares. Vivo no meio de mdicos. Oura muitas histrias de amigos enfermeiros, tcnicos de laboratrio... Registro tudo o que ouo. J lhe disse, aprendo com facilidade. Charlie estar em segurana comigo, T.J.
Callie ainda no revelara tudo. Ele sentia tenso e reserva em sua voz.
Mesmo contrariado, admitiu que acreditava nela. Na necessidade de resgatar sua culpa.
E, a despeito do que afirmara, precisava de ajuda, sim.
	Oua, Callie. Juro que se voc...
Ela o interrompeu.
	No prejudicarei Charlie. Prometo.
	Cuidar de um beb no  como passear no parque  falou num tom de dvida, mas disposto a conceder-lhe uma ltima chance.  Se no estiver acostumada a lidar com crianas, poder comprometer a sade de Charlie. Tudo se torna muito importante. Controlar a dosagem de glicose no sangue, na urina. Dever saber como agir nas emergncias. Ter que aplicar-lhe insulina. Precisar estar atenta aos sinais de hipoglicemia e de cetona. So,..
	Conheo esses termos, T.J.  informou-o com segurana.--- Hipoglicemia  a reao causada pela queda rpida de acar no sangue. A presena de cetona  o resultado da queima de gorduras pela falta de glicose nas clulas. E, hiperglicemia  o excesso de acar e completa falta de insulina. Voc poder me fornecer uma lista com a descrio dos sintomas. Um esquema para aplicao das injees. Aprenderei a testar a urina. No sou mais uma criana, T.J.  Com voz trmula, concluiu:--- Cuidarei muito bem de Charlie.
Aquelas palavras o convenceram. Independente do que ainda escondesse a respeito de sua vida presente, Callie cuidaria de seu filho.
	Com certeza, amanh cedo estarei chutando a mim mes mo!  resmungou.
	Entendo. Sinto a mesma coisa.  Riu.  Acha que sua reputao suportar minha presena na fazenda?  Tentava aliviar a tenso entre ambos.
Com um movimento rpido, T.J. recolheu as chaves.
	Oh, sim! Creio que o que restou de minha reputao sobreviver a alguns dias ao lado de Callie Jo Murphy, a mulher rebelde de Tarpon City.
Ambos sabiam que a imagem que ficara dela era muito diferente.
Callie permaneceu com Charlie, enquanto T.J. retirava sua bagagem do carro. Tremeu ao ouvir o rudo das malas sendo colocadas na parte traseira da caminhonete. No podia cuidar de Charlie! No daria certo! Oh, sim, seria capaz de atender s suas necessidades mdicas, mas... Balanou a cabea, tentando reconsiderar sua posio.
Por que concordara com a proposta de T.J.? Alm do sentimento de culpa que a lanara contra a parede, aquele fora um dia feito de atos impulsivos. Entretanto, sem dvida, considerava sua deciso como o maior erro de sua vida.
Um arrepio percorreu-lhe a espinha. Seu gesto impulsivo poderia destruir sua vida.
Arrasada, segurou a maaneta.
O suspiro profundo de Charlie a deteve. Com a ponta do dedo, tocou a pulseira de ouro.
	Oh, garoto...  murmurou.  Voc no pode depender de mim. Voc merece algum muito melhor. No sou a pessoa indicada para cuidar de voc.
Prometera a T.J. que no abandonaria Charlie. Aquele beb dependeria dela. Em consequncia, T.J. tambm.
T.J. entrou na caminhonete. Enxugou o rosto e os cabelos com uma fralda. Olhou-a de relance, mas, no disse nada. Callie suspeitou que ele adivinhara suas intenes de recuar.
Ligou o motor, saindo do estacionamento da lavanderia. Dirigiu em marcha lenta at chegarem  estrada principal. Ento, aumentou a velocidade em direo  ponte que o levariam para fora da ilha.
Callie suspirou. Os dados esto lanados. No tem mais volta.
J experimentara tempos muito piores. Sobreviveria. Sem dvida, encontraria um modo de vencer com dignidade alguns dias na fazenda.
Com T.J. E seu filho.
T.J. no lhe cobrara nada. No usara seu comportamento para chantage-la emocionalmente. No era do carter dele. Fora ela quem mencionara uma dvida entre ambos. No lhe contara tudo. Nem contaria. Tinha certeza de que ele acreditara que, quando falara em dvida, referira-se  sua fuga. Alis, esse gesto, por si s, j gerara um dbito muito alto. Suas explicaes haviam soado convincentes. T.J. as aceitara.
Tinha certeza de que as aceitara.
Atravessaram a ponte sob uma chuva fina. Na Intracoastal Waterway, um barco solitrio navegava em sentido contrrio. Callie virou-se para olh-lo.
	Um barco de pesca  T.J. explicou-lhe.
Depois, seguiram viagem no mais absoluto silncio.
Com a cabea apoiada no banco, Callie observava o modo como T.J. mantinha as mos no volante, com os dedos apertando o aro de plstico.
As mos que, um dia, haviam acariciado sua pele, provocando arrepios de prazer e desejo. As mos de T.J. eram hbeis, macias.
Mesmo com dezessete anos e inexperiente, sentira toda a sensualidade dele.
Fechou os o'.hos, permitindo que os pensamentos corressem livres at que a magia da noite envolvesse sua alma numa serena aceitao de tudo o que estava por acontecer.
A mudana no rudo do motor a acordou. T.J. saiu da estrada, entrou por um caminho que terminava na fazenda. Com habilidade, manobrou a picape, estacionando-a nos fundos da casa. A casa em forma de L no era mais do que uma sombra entre rvores e construes anexas. Num cercado,  esquerda da caminhonete, algumas formas se movimentavam. Cavalos.
Endireitando-se no banco, Callie massageou a nuca.
	Bem, Callie. Esta  a minha vida.  Virando-se, esticou o brao no encosto do banco. Fitou-a quase com indiferena.
 Poderia ter sido sua. Nossa.
Callie no respondeu. Ao aceitar o convite de T.J., decidira que o melhor seria conviver pacificamente, evitando comentrios constrangedores ou ofensivos.
Diante do silncio dela, T.J. conduziu o veculo at a garagem. Desligou o motor. Apontou na direo dos cavalos.
	Ainda deseja nos ajudar, doura?  Os lbios se curvaram num sorriso irnico.  Dias longos, sem glamour. Aqui no h lugar para diamantes e sedas.
	Trouxe jeans.  Inclinou a cabea com ar de inocncia. 	Claro, so novos e sedosos. Acha que isso criar problemas?
	Depende de onde se sentar!  Sufocou o riso. Sedosos, hein!
	Sim, cowboy. Um novo tipo de tecido.  Sorrindo, acrescentou:  Lavvel  mo.
	Uau... Novo...  Pegou o cesto de Charlie.
	Sim.  Perguntou-se se ele desconfiava que comprara os jeans para a lua-de-mel.
	Estou curioso para saber at quando suas roupas de seda lavveis  mo resistiro ao xixi e s babadas de uma criana ele comentou, descendo da picape com o cesto de Charlie.
Callie seguiu-o em direo  casa. T.J. abriu o porto do alpendre e recuou, dando-lhe passagem. As ferragens rangeram.
	Preciso lubrificar essas ferragens. Qualquer dia destes. Quando tiver tempo.  Abriu a porta da cozinha.  Entre, Callie. Veja aonde veio parar.
	Tudo bem.
	Vou acender as luzes. No quero que caia e quebre o pescoo.
Colocou o cesto de Charlie sobre a mesa.
Callie examinou a cozinha, agora iluminada. Apoiando-s no batente da porta, olhou para fora. O velho carvalho ainda estava l. Lembrou-se de uma tarde quente em que, sentada na varanda, descascava pras para a me de T.J., enquanto ele cavalgava um cavalo recm-comprado. Exibia-se para ela, cavalgando sem camisa e sem sela, at Buck chegar, acabando com a brincadeira.
	Em que pensa?  T.J. interrompeu as recordaes.
	Em como tudo mudou.  Imaginava reencontrar a mesma cozinha antiga mas confortvel, onde tantas e tantas vezes bebera ch gelado.
T.J. relanceou os olhos pela cozinha.
 verdade. O fogo quebrou, a geladeira queimou... Claro, uma vez que Suzy e eu...  Passou as mos pelos cabelos midos e despenteados. No conseguiu evitar um bocejo.  Desculpe.  Bocejou de novo. Sorriu.  Desculpe, por favor. Como diz minha me,  falta de oxignio e no pela companhia.
	Bah... ah-boo... ah.boo...  O chamado vinha do cesto.
	Olhe quem quer participar da festa.  T.J. segurou o filho nos braos. Emitindo sua prpria linguagem, Charlie tocava na face do pai.  OK, garoto. Vamos conversar!
Abrindo a porta do refrigerador, Callie verificou o contedo.
	Voc tem comido?
T.J. fitou-a.
	O qu?

	Comida, cowboy. Sopa.  Tirou os sapatos, caminhando com os ps descalos no cho frio. : Est com fome?
	Sim. Antes, porm, este cavalheiro e eu teremos que atender a um compromisso urgente.
Callie abriu a gaveta de verduras. Dentro, um rolo de papel toalha j mofado. Em outra gaveta, um pimento vermelho, uma cebola e um tomate meio machucado.
	Espero que no esteja muito faminto  resmungou, limpando as gavetas. Fechou a porta da geladeira.  No posso fazer milagres.
	Como qualquer coisa. No sou exigente  T.J. falou antes de sair da cozinha.
	D para perceber.
	O que disse?  ele perguntou, enquanto atravessava o hall em direo ao quarto.
	Nada. Pensei alto.
No armrio, encontrou latas de cereais e farinha.
	leo?  Subindo numa cadeira, vasculhava as prateleiras do armrio.  Deixe-me ver. Onde me esconderia se eu fosse uma lata de leo?
	No armrio sobre o fogo  T.J. respondeu.
Assustada, cambaleou batendo contra a porta.
	Droga! Voc me assustou  gritou, friccionando o cotovelo.  Est me vigiando, ?
Apoiado na parede, sem camisa e descalo, T.J. carregava Charlie nos braos.
	Tente o armrio sobre o fogo  repetiu com um brilho de alegria nos olhos.  Voc est bem?
	Muito bem.
	Aqui. Deixe que eu pego.
Passando por ela, T.J. abriu o armrio de onde tirou uma lata de leo.
Cheiro de beb trocado e de homem com olhos brilhantes. Callie apoiou-se na pia para esconder as mos trmulas de emoo.
Seus olhos pousaram no peito bronzeado de T.J. Ele parara muito prximo. Podia sentir o calor de sua pele. Queria toc-lo, acarici-lo.
E ele sabia...
	Obrigada. Por que voc... oh, no sei. Sente-se ali. Ou ento, alimente os cavalos. Faa alguma coisa, por favor!  Afastou-se rpido, a lata quase encostando no peito dele. Pare de me vigiar, sim?
	No a estou vigiando, Callie.  O tom de voz soou conciliador. Apenas ia at a despensa buscar o cercadinho de Charlie.
	timo. Boa ideia. Coloque-o ali e depois v fazer seu trabalho. OK, cowboy?
	Certo, madame.
Esticando os braos, Charlie agarrou uma mecha dos cabelos de Callie.
	Calma, garoto! Charlie, solte os cabelos de Callie.  T.J. disse.  Olhe o que voc fez!
Com o beb segurando seus cabelos, Callie viu-se presa entre o fogo e o peito nu de T.J. Sob o tecido da roupa sua pele queimava com o calor do corpo dele.
	No se preocupe.  Callie mal respirava. Tentou alcanar o pulso de Charlie. Afastou rapidamente a mo, ao sentir os dedos de T.J. em seus cabelos.
Por nada no mundo deveria t-lo fitado naquele momento.
	Pronto. Considere-se livre.  Com um sorriso malicioso, voltou-se em direo  despensa. Sob o ombro do pai, Charlie tambm sorria.
Callie colocou uma panela com leo no fogo. Cortou o pimento, a cebola e o tomate em tiras.
Com o canto dos olhos, viu T.J. entrar na cozinha.
	Meia hora. Em meia hora o jantar estar servido  anunciou.
	Grande!  Olhou para as tiras de cebola, pimento e tomate.  Interessante...
	Se sabe o que  melhor para voc, Thomas Jefferson Tyler, guarde suas opinies.  Enquanto falava, Callie gesticulava com a faca na mo.
	Certo  respondeu com voz e expresso tranquilas. Entretanto, o modo como a fitava no tinha nada de tranquilo.
Fugindo do olhar perturbador, ela lavou as mos na pia.
	O que preciso fazer por Charlie antes do jantar?
	Tenho que aplicar-lhe insulina antes da ltima mamadeira. Vou explicar.  Colocou Charlie no cercadinho.   
De repente, Callie sentiu um puxo na saia. Olhou para baixo. Charlie inclinara-se at alcan-la, introduzindo os de-dinhos entre os pontos da bainha. Quando Callie o olhou, ele ergueu a cabea para fit-la tambm.
O beb parecia assustado. Apertou os olhos, como se fosse chorar. Mas continuou a fit-la. De repente, sorriu e as faces rosadas refletiam pura alegria. As pernas de Callie tremeram.
No conseguia se mover.
A mozinha macia tocava sua pele. Se seu carro estivesse na fazenda, com certeza, teria partido naquele momento. Nunca imaginara que o pequeno Charlie tivesse o poder de destruir suas defesas apenas num simples toque, com um simples olhar.
	Hei, Charlie! O que est fazendo, querido?  murmurou, com o corao apertado.
T.J. acariciou a cabea do filho.
	Ainda tenho meia hora, no?  perguntou.
	Sim.  Callie no queria ficar sozinha com Charlie.
	Preciso alimentar o gado e os cavalos.  Espalhou alguns brinquedos coloridos ao redor de Charlie. Com as mos nos bolsos, ergueu os ombros.  Se precisar de alguma coisa, grite. Eu ouvirei.
	Gritarei.
Foi para o quarto, de onde retornou com uma camisa seca e botas.
	Callie...  Tocou nos cabelos dela.  Obrigado. Nunca mais brinquei com Charlie desde que a governanta foi embora.
	V alimentar os cavalos, T.J. O relgio est correndo.
A porta bateu atrs dele. Charlie olhou para a porta e depois para Callie. Ela engoliu em seco.
No se lembrava de como eram seus irmos e irms naquela idade. Apesar de sempre ter cuidado deles, no conseguia lembrar-se deles como bebs. Ela mesma no passava de uma criana naquela poca. Como agir com um beb de seis meses?
	No se preocupe, Charie. Seu pai voltar logo, prometo.
 Os lbios dele se curvaram, numa ameaa de choro.  Oh, meu bem, por favor, no chore.
Srio, olhou novamente para a porta, depois voltou-se para Callie.
	Ah-boo...  resmungou.
	Oh, Charlie, ah-boo para voc tambm. Mas confesso que no sei o que voc quer.  Acariciou o rosto dele.  Seu pai, com certeza. Olhe, vou lhe mostrar uma coisa, OK?  Entregou-lhe um brinquedo de plstico. O garoto o aceitou.  timo, Charlie.
	Ah-dah, ah-dah...
	Sim, tambm acho. Ah-dah...  Agradecia pelo fato d T.J.
no estar presente. Com certeza, riria de seu comportamento.
Quando T.J. retornou, foi direto para a despensa, onde deixou as botas. Assim que entrou na cozinha, Callie ofereceu-lhe um prato com espaguete, pimento com tomate e cebola e um bife, que encontrara no freezer. Admirado, ele colocou o prato na mesa, sentando-se em seguida.
	No vai comer, Callie? A comida  suficiente para os dois.
	No estou com fome, obrigada.  Ansiava pela opinio dele.
	Eu estou faminto.  Enrolou o espaguete no garfo, levando-o  boca. Repetiu.  Hei, no est de todo mal!
	Recomeou a comer com apetite.
	T.J., voc se salvou por pouco.  Sentou-se na frente dele.  Se reclamasse, eu iria decorar seu rosto com o resto da comida.
	Callie, voc est me olhando daquele jeito...
	Que jeito?	
	Oh, aquele olhar que transmite a seguinte mensagem: cuidado, cowboy, voc est quase ultrapassando o sinal.
	Por que o olharia assim, T.J.?
	Daria tudo para saber, Callie Jo  respondeu com ar inocente.
	Pense a respeito, T.J. Depois me conta.  Sorriu, tambm com expresso inocente.
Rindo, T.J. concordou com um movimento de cabea.
	Muito divertido. Pensei que conseguiria arrancar alguma resposta, porm, voc no me d abertura. Nestes anos todos, creio que aprendeu a jogar pquer, porque nunca sei qual ser seu prximo passo. Por esse motivo, acho melhor olhar bem por onde ando.
	timo.  Girou o anel de noivado vrias vezes, enquanto elaborava o que pretendia dizer.
T.J. terminou de jantar antes dela encontrar as palavras correias.
	Olhe, T.J., minha estada aqui ser embaraosa para ambos.  Continuava girando o anel.  De modo que eu...
	Voc prefere que eu no ande seminu. Acertei, Callie Jo?
Sabia que ele ria de sua atitude to infantil, mas tinha o bom senso de no demonstrar. Pelo menos, diante dela.
	Uma camisa ajudaria  falou constrangida.   tudo o que peo.
	At onde me diz respeito voc no precisar usar camisa, Callie  brincou.  Enquanto estiver conosco, quero que se sinta em sua casa. Faa somente aquilo que a deixar feliz.
	Sabe de alguma coisa, T.J.?
	O que, doura?
	E um milagre sua me ter sobrevivido aps t-lo criado.
	Ela sempre disse que eu era o filho predileto. Claro, dizia a mesma coisa para Buck e Hank. Ento,  impossvel saber de quem gosta mais.
Callie riu.
	Voc  mesmo impossvel, Thomas Jefferson Tyler.
	Sim, Callie. Prometo andar vestido enquanto voc estiver por perto.  Levantou-se com o prato na mo. Com um toque de malcia, acrescentou:  Ser difcil,  verdade, mas conseguirei, acredite.
Callie evitou rir novamente. Temia encoraj-lo a tornar-se mais atrevido se continuasse rindo.
T.J. limpou o prato com papel toalha antes de coloc-lo na lavadora de louas. Sem olh-la, perguntou:
	Voc no tem rido muito ultimamente, tem Calliope Josephine?
	No  respondeu to baixo, que no sabia se ele ouvira ou no. At o comentrio de T.J., nunca percebera que raramente ria.
	Deve rir mais, doura.
	Creio que sim.
	Voc e seu querido James no costumam rir, no ?
Admitia que T.J. acertara no alvo.
	Um pouco. No. Nunca  confessou.  ramos... srios.
	Pssimo.  Lavou as mos, enxugando-as com papel toalha.
Esquecera que T.J. a fazia rir com facilidade. Oh, lembrava-se de como seu toque despertava o desejo em seu corpo de mulher-menina, que ainda no conseguia avaliar a habilidade dele como homem.
Entretanto, no era mais uma adolescente. Era uma mulher que sabia que um homem que a fazia rir com tanta facilidade era extremamente perigoso.
	Bem, Callie, este foi um longo dia para ambos. Se no estiver muito cansada, gostaria que participasse do banho e dos demais cuidados com Charlie. Aceita?
	No estou cansada. Acho melhor comearmos esta noite mesmo, evitando correrias amanh cedo. No quero cometer erros.
	OK. Por que no coloca sua bagagem no quarto do final do corredor enquanto preparo o banho de Charlie?  Tirou o filho do cercadinho.  Vamos, garoto. Hora do banho.
Antes de levar as malas para o quarto, Callie preparou uma xcara de ch. Colocou a xcara sobre a mesa, deixando-se cair na cadeira. Pela primeira vez, percebeu o quanto estava realmente exausta.
Ouvia o rudo do chuveiro e a voz de T.J. brincando com o filho.
De repente, pensou na mulher que arrumara cuidadosamente as caixas de ch ao lado dos vidros de doces natalinos. Com os cotovelos na mesa, apoiou a cabea nas mos. Tinha pela frente uma longa, longa semana.

CAPITULO V

T.J. entrou na cozinha com Charlie nos braos.
	Viu Callie sentada, com a cabea entre as mos.
Sobre a mesa, uma xcara com algo quente. Os cabelos longos se espalhavam sobre a nuca. Os ombros cados, os ps enroscados nas pernas da cadeira.
	Callie?
Ela levantou a cabea. Com esforo endireitou o corpo, colocando os ps no cho.
	Pronto?  perguntou sorrindo.
	Sim. Sei que j  tarde, mas preciso aplicar-lhe insulina e dar a mamadeira. Os horrios so rgidos. No quero que durma sem comer. Para evitar problemas. Se estiver cansada e preferir comear amanh, tudo bem.
	Oh, no. Este  o momento. S preciso de papel e caneta.
No quero esquecer de nada.
	H um bloco de papel na gaveta do console do telefone.
Ao lado da geladeira, h a tabela de insulina. Anoto a quantidade e o horrio de cada aplicao. H tambm um grfico que indica todos as regies do corpo onde se pode aplicar a insulina.  importante alternarmos estas regies, OK?
	Por qu?  Callie pousou a caneta sobre o papel. T.J. notou a caligrafia segura e legvel.
	Caroos. Protuberncias sob a pele. Precisamos dar um descanso  pele entre as injees.
Ela estremeceu quase imperceptivelmente.
T.J. compreendeu.
Era assustador olhar para Charlie, no muito maior do que uma boneca, e imaginar o que precisaria fazer. Para ele tambm fora um choque muito grande ouvir os detalhes pela primeira vez. Naquele dia, depois da conversa com o mdico, correra para o banheiro e esmurrara o espelho. Reao estpida, intil que no contribura em nada para amenizar sua dor.
Era uma realidade com a qual teria que conviver eternamente.
	Ainda h tempo para desistir, Callie.  De repente, foi assaltado pela ideia de que a induzira a ir para a fazenda.
Preocupava-o, tambm, a conversa estranha de que ela lhe devia uma reparao. Decidiu dar-lhe mais uma chance para voltar atrs.  E, ento?
	Por que desistiria, T.J.?
Ele ergueu os ombros.
	Estou exigindo muito de voc. As injees, os controles, a eterna vigilncia das reaes.  muita responsabilidade, no?
	Sim, .  Concentrada nas anotaes, no ergueu a cabea para fit-lo.
	Bem, costumo anotar a taxa de glicose no sangue e o horrio em que colhi a amostra na mesma folha de papel onde anotei as injees de insulina. Voc encontrar as ltimas anotaes.
	Tudo bem.
Tirou do armrio um kit com as seringas e todo material necessrio. Colocou-o sobre a mesa.
	Sei que no  muito indicado manter tudo isto na cozinha, mas Charlie e eu nos adaptamos a esta rotina. Mas, se preferir o quarto ou outro cmodo da casa... fique  vontade.
	Verei a melhor maneira.
T.J. no conseguiu ler a expresso do rosto dela. Por um momento, imaginou que Callie poderia sentir repulsa por tudo o que teria que fazer. Porm, pelo modo como olhou para Charlie antes de continuar as anotaes, percebeu que no havia repulsa, mas, sim, angstia.
As emoes transpareceram apenas por uma frao de segundo. Logo, Callie mostrou-se impassvel, como sempre. T.J. lembrou-se da reao estranha, no momento em que Charlie puxara sua saia. Alguma coisa no comportamento de Callie o intrigava. Ela se esforava demais em evitar qualquer contato com Charlie.
Isso no era natural. A reao de Callie era muito estranha. Por mais que ela se negasse a responder s perguntas, T.J. no desistiria. Como um cachorro farejador, descobriria o motivo pelo qual se mantinha to reservada com relao a Charlie.
Teria uma semana. Ou duas.
Se ela conseguisse cuidar de Charlie.
	Os nmeros de telefone esto anotados numa etiqueta colada no receptor. J esto programados para discagem automtica. Do pediatra, do hospital.
Callie concordou com um movimento de cabea, sublinhando uma palavra no bloco.
	No caso de alguma dvida, poderei ligar para o mdico de Charlie? Ou espero at voc voltar?
	No, no espere. Qualquer dvida ou pergunta, mesmo que no ache importante, ligue para o dr. Rothman. No espere.
	No quero ser inconveniente.
Afagando as costas do filho, T.J. continuou as explicaes. Callie ouvia atentamente.
	A insulina no deve ser conservada na geladeira?
	No.  T.J. observava os dedos finos segurando a caneta com firmeza. Desejou sentir o calor das mos dela em sua pele. Desejou esquecer os sofrimentos, a doena do filho, as mgoas e abandonar-se ao prazer da presena de Callie. Apertou mais o corpo de Charlie, numa tentativa de afastar os pensamentos.  No  preciso mant-la na geladeira. Apenas em lugar fresco, protegida do calor.
Mostrou-lhe a glicose que deveria usar, caso Charlie estivesse inconsciente ou se no pudesse ingerir acar por via oral. Instruiu-a sobre o que fazer e como ministrar a injeo de glicose, se necessrio. Depois, sabendo que era menos intimidante, mostrou-lhe um tubo de glicose em forma de gel, para ser friccionada nas gengivas de Charlie, caso a reao da insulina fosse mais branda.
Anotou as instrues e examinou o tubo.
	Parece cobertura de bolo. Irnico, no?
	Callie, Charlie ter bolo de aniversrio. Sua vida ser normal. Claro, ter responsabilidades que outras crianas no tm mas, de uma forma ou de outra, todas enfrentam algum tipo de problema. Charlie no precisar encarar-se como uma criana cuja vida  limitada devido ao diabete. No, se eu puder evitar  T.J. falou com rispidez.  Quero que aprenda que sua vida no se resume a injees, testes e dieta. Ora, Callie, ele ter que entender que sua vida ser como a de um atleta. Que precisar de disciplina e rotina para sobreviver.
Callie o olhava perplexa. Pelo menos, ele esperava que fosse perplexidade. Embaraado pelo modo como extravasara seus sentimentos, desculpou-se:
	Sinto muito. Acho que exagerei.
	Voc tem todo o direito.  que no... no me lembro de voc falando com tanta... eloquncia.  Em vez de eloquncia preferia ter usado a palavra paixo, mas temeu a reao dele.
	Sim, vivo intensamente a situao em que meu filho est vivendo. O que a diabete poder fazer com ele.
	A doena o assusta, no?
	Sim  admitiu com franqueza.  Assusta e muito. Muitas noites, nem durmo, s pensando.  Acariciou as costas de Charlie.  Ele  to pequeno. No consigo evitar de pensar em seu estado, depois de conviver com a doena por vinte anos.Respirou fundo.  Droga, no pretendia tocar neste assunto.
	Sei que  uma frase feita e que no consola muito, mas as pesquisas mdicas tm progredido tanto...  Seu rosto refletia toda a dor de T.J.
	Sim, sim. Conforta, sim.  um pensamento a que me apego todos os minutos da minha vida. Pesquisas. Esperana. Ajeitando Charlie nos quadris, com a mo livre, misturou leite em p e gua na mamadeira. Colocou a mamadeira para esquentar em banho-maria.
T.J. nunca confessara seus temores a ningum. Nem para a famlia. Nem para Buck ou Hank. Nem mesmo para o mdico de Charlie. Nunca contara sobre os pesadelos, sobre o desespero de sentir o corpinho do filho sobre o seu, quando o beb chorava  noite. Jamais tivera coragem de comentar como se sentia sozinho nessas noites ou o quanto apavorava conscientizar-se de que Charlie dependia inteiramente de um pai que, muitas vezes, no sabia como faz-lo parar de chorar.
Estava to cansado da solido.
Mesmo que Suzy estivesse viva, no poderia falar a respeito de suas preocupaes com a doena de Charlie. No o ouviria. Estaria mais aterrorizada do que ele. Suzy no saberia conviver com os temores.
Se errasse em alguma coisa...
Callie se aproximou em silncio, pousando a mo sobre a dele. Como T.J. imaginara, os dedos eram frios, macios. Tremeu com o toque.
 T.J., no poderia haver um pai melhor do que voc. A voz soou clai-a e sincera. O olhar suave transmitia algo que T.J. considerou como compaixo.
	Fao o que qualquer pai faria no meu lugar.
Desligou o fogo. A mamadeira j estava aquecida. Preparou-se para aplicar a insulina.
Hora de saber se Callie poderia aplicar injeo em Charlie.
	Bem, Callie Jo, vamos  prxima lio.
Tirou a seringa e o frasco de insulina do kit. Com movimentos rpidos, mostrou-lhe como proceder.
Enquanto ela anotava minuciosamente as explicaes, T.J. verificou a temperatura da mamadeira.
	Continue, T.J.
Quando ele terminou de preparar a insulina, viu apreenso no modo pelo qual Callie segurava o bloco de papel antes de colocar a caneta sobre a mesa. Respirando fundo, fechou os olhos.
	Vai machuc-lo  murmurou. At os lbios estavam sem cor.
	Um pouco. Mas sofrer mais sem as injees. Nossas lamrias no o ajudaro em nada. As aplicaes, sim. Elas o mantm saudvel.
	Certo.  Abriu os olhos e encontrou o olhar perscrutador de T.J., vido por respostas que no encontraria nas pupilas dilatadas.
Fitando-a nos olhos, na cozinha silenciosa, com Charlie entre ambos, T.J. sentia-se mais solitrio do que jamais se sentira em toda a vida.
Callie piscou. Entregando-lhe o lcool e a seringa, T.J. sentou-se com Charlie.
	Eu o seguro para voc aplicar a injeo. Uma vez que voc no lhe  familiar, ser menos doloroso. Comece quando estiver pronta, OK?
T.J. esfregou o nariz no de Charlie, que seguia seus movimentos com os olhos. Todas as vezes que aplicava injeo no filho, T.J. fazia mil peripcias para mant-lo distrado no momento em que a agulha penetrasse sob sua pele.
	Garoto, fale com o papai.  Afagou as faces do beb e, em voz baixa, falou suavemente com Callie. V em frente. No vacile. Quando mais rpido, melhor.
A seringa balanava na mo dela.
	Vamos, Callie. Agora! No vacile. Agora ou nunca ordenou quase com impacincia.  Ou deixe que eu mesmo aplico. No vou esperar que sofra um ataque de nervos. Decida-se, querida.
Ajeitou Charlie para que no visse os movimentos de Callie.
Com rapidez e segurana, ela procedeu exatamente como T.J. a instrura.
Ela no mentira. Aprendia com facilidade. E muito bem.
Charlie choramingou. Seus olhos se encheram de lgrimas.
	Pronto, garoto. Est tudo bem. No precisa chorar. Afinal, voc  quase um rapaz, no ? Sim, claro que .  Acariciou os ps descalos do beb, que sorriu meio desconsolado.
Callie colocou a seringa sobre a mesa. Depois, sentou-se. Bebeu um gole de ch, agora frio. Largou a xcara e cruzou as mos.
Com a ponta dos dedos, T.J. enxugou as gotas de suor que contornavam o lbio superior dela.
	No  fcil, mas acabar se acostumando  animou-a.
Disfarando o tremor que o toque lhe provocava, beijou o topo da cabea do filho.
	Pronto para a mamadeira, garoto? Vejamos o cardpio desta noite. Deixe-me ver... Oh, sim... leite  moda da casa!
	A conversa era totalmente sem nexo, porm, ele sabia o quanto o tom calmo de sua voz era benfico para a segurana de Charlie.
Suspeitava que ajudava tambm a Callie. Sabia que essas tolices noturnas o confortavam.
	Boa noite, T.J.  Ela se ergueu, derrubando a cadeira.
T.J. pegou-a, mantendo Callie presa entre seu brao e a cadeira.
	Posso contar com voc, Callie?
Os olhos dela estavam frios e tristes. Em silncio, concordou com um movimento de cabea.
	Boa noite, Callie Jo.  Afastou-se para deix-la passar.
T.J. sentou-se. Puxou outra cadeira, esticando as pernas sobre o assento. Colocou o bico da mamadeira na boca ansiosa de Charlie. Observou Callie atravessar o hall at desaparecer nas sombras do quarto, fechando a porta atrs de si.
Passando sob o vo da porta, a luz amarelada se destacava no hall escuro.
	Ah, Charlie, muitas vezes, a vida parece um jogo de dados, no ?  T.J. sorriu para o filho, que o fitava de olhos arregalados.
	Mas, ns, rapazes valentes, nos manteremos unidos, OK?
Sem diminuir o ritmo da entusistica suco, Charlie manteve os olhos fixos no rosto do pai, at ser vencido pelo sono.
Cuidadosamente, T.J. ergueu o filho, batendo de leve em suas costas.
A luz sob a porta do quarto desapareceu. O hall escuro, tornou-se sombrio, povoado pelos fantasmas do passado e do presente. T.J. quase podia visualiz-los.
Por muito tempo ainda, permaneceu na cozinha, sentado, observando as sombras. Depois, com passos lentos, foi para o quarto, colocando Charlie no bero.
Durante a noite, teve a impresso de ouvir o choro de Charlie. Num movimento rpido, saiu da cama e se aproximou do bero. O filho dormia tranquilamente com um coelhinho de pelcia na mo.
Apurando os ouvidos, percebeu que os soluos abafados vinham do quarto de Callie. Em silncio, caminhou at o quarto dela, parando ao lado da porta trancada.
Acordada ou sonhando, Callie chorava copiosamente. Preocupado, com o rosto e as mos contra a porta fechada, T.J. esperou at que o choro cessasse, restando apenas silncio e solido. S ento, retornou a seu quarto.
Callie abriu os olhos e examinou o quarto que mal notara na noite anterior. Reconheceu o quarto de Buck.
Sentiu os olhos inchados e doloridos. Deveria ter tirado as lentes de contato antes de dormir. Sentou-se na cama por alguns minutos, antes de levantar-se. Ainda meio desorientada, caminhou at a janela. Ansiava por um banho e um caf bem forte.
Pela janela aberta, ouviu o rudo distante de um motor, sentiu o cheiro da terra molhada, dos oleandros e da fazenda em atividade. Abriu a porta do quarto e espiou o hall.
Aparentemente, T.J. e Charlie no estavam. Teria a casa s para ela. Alguns momentos de privacidade para recompor-se, antes de enfrentar os Tyler.
No se sentia preparada para testar o sangue de Charlie, nem para aplicar-lhe a insulina. Precisava de tempo para armar suas defesas contra aqueles olhos azuis repletos de lgrimas. Precisava tempo para manter-se distante da expresso grave de T.J. e do sorriso inocente que iluminava o rosto do beb.
Sim, concordara em ajud-los. Mas, no abriria o corao para nenhum deles. Nem para o pai. Nem para o filho.
Principalmente para Charlie.
Conhecia de sobra o charme de T.J. O modo matreiro como a envolveria, caso lhe desse a menor abertura. Poderia defender-se de T.J. Tomara as vacinas contra Thomas Jefferson Tyler. E, as vacinas haviam deixados marcas eternas.
Charlie poderia tornar-se um problema.
No pretendia dar-lhe chances para tocar seu corao.
Se isso acontecesse, seria o fim. No suportaria.
Todas as defesas que erguera durante quatorze anos, poderiam ser abaladas se cometesse a imprudncia de permitir que o pequeno Charlie se apossasse de seu corao.
Sonolenta, empurrou a porta entreaberta do banheiro. Admitia que cuidar de Charlie seria uma tarefa muito mais rdua do que sonhara. Cambaleando, entrou no banheiro. De repente, parou. Piscou vrias vezes.
	Oh!
	Calie, voc precisa ampliar seu vocabulrio.  Com ar divertido, Charlie saa do boxe, com Charlie nos braos.
	Ah-boo!  Charlie resmungou, esticando os braos para Callie.  Ah-boo, ah-boo!
Os cabelos molhados de T.J. chegavam  nuca. Gotas de gua escorriam pelos ombros, pelas linhas dos msculos do peito, pelos quadris, pelas pernas bronzeadas, perdendo-se na curva dos ps finos.
	Sua me no ensinou que no  de boa educao tanta curiosidade, Calliope Josephine?  Meio encoberto pela porta do boxe, T.J. apertava Charlie contra o peito.
Callie ergueu a cabea para fit-lo. Perdera a fala. Havia fogo no brilho divertido ds olhos dele. Fogo e no o menor sinal de embarao.
As faces ruborizadas ardiam, mas, enfeitiada, no conseguia desviar o olhar daquela viso. Toda fora e poder. O corpo de T.J. era bonito. Uma harmonia perfeita de msculos, ossos, pele bronzeada. Pele brilhante, macia, atraente.
Por que no fechou a porta?  murmurou com a boca seca, enquanto o olhar teimava em acompanhar as gotas que escorriam pelos ombros dele.
	O exaustor quebrou. Se fechar a porta, o bolor aumenta.
Umidade. Lembra-se, Callie?
Ela se lembrava. Avanou um passo, fascinada pelo modo como a gua delineava os msculos do corpo de T.J.
	Entenda, doura. No estou me queixando. Pode olhar o quanto quiser, mas est comeando a esfriar aqui dentro.  Ergueu uma sobrancelha.  Quer me dar a toalha pendurada atrs da porta?  pediu, libertando-a da magia daquele corpo bonito.
Finalmente, Callie voltou  realidade.
	Oh, cus. Desculpe, T.J. Desculpe. No sabia que estava aqui. No o ouvi. Sinto muito  balbuciou, com a garganta e o rosto ardendo.  A toalha. Sim, claro.
Estendeu-lhe a toalha. T.J. a enrolou no corpo de Charlie. Com movimentos rpidos, enxugou o filho.
	Uma maneira rpida de nos banharmos  T.J. comentou.
 Charlie adora gua.
	Sim. Oh, claro.
	Callie?
	Sim?
	Isso tambm foi comprado para a lua-de-mel? Extremamente fascinante.  Soltou uma gargalhada.  Olhe, falando por mim e por Charlie, adoramos o visual.
Abaixando a cabea, viu a camisola de seda bege marcando as linhas do seu corpo. A pele brilhava sob o tecido transparente.
Sem uma palavra, fugiu.
Somente quando ouviu T.J. fechar a porta do quarto, Callie voltou para o banheiro, vestindo uma camisa sobre a camisola e carregando uma muda de roupa nos braos.
Fechou e trancou a porta.
Ao inferno com o bolor.
Se necessrio, ela mesma consertaria o exaustor.
Foi exatamente o que disse para T.J. na cozinha, vinte minutos depois.
	O conserto do exaustor ou o mofo  falou com determinao, enquanto preparava seu caf. No conseguia encarar T.J. Sabia que ele ainda ria s suas custas.  Conserta voc.
Conserto eu. No importa.
T.J. riu.
	Sinto muito pelo que aconteceu, Callie. Pensei que no acordaria to cedo. Do contrrio, a teria prevenido. Ou trancado a porta.
	No tenho tanta certeza assim.  Num gesto de coragem, encarou-o.  Creio que tornou-se um exibicionista depois de velho, Thomas Jefferson.
	Velho, Callie? No se envergonha, no? Que golpe baixo!
	Apontou o dedo em riste para ela. Charlie mexeu-se no cadeiro tentando agarrar o dedo do pai.  De qualquer modo, doura, admiro, e muito, o seu bom gosto para roupas.
	Melhor parar por aqui  Callie avisou-o.
	Parar? O qu?  Ajeitou-se na cadeira. As pernas compridas quase tocavam os ps dela, do outro lado da mesa.
	Parar com...  gaguejou.  Voc sabe. Com isso  concluiu, movimentando a mo em crculos no ar.  Uma vez que precisaremos trabalhar juntos, no quero que continue rindo de mim porque... Ora, porque no quero.
	Doura, no estou rindo de voc.  Encheu a xcara com caf.  Mas sou um homem preocupado com o senso de absurdo, Callie. Voc sabe.
Ela sabia. Movimentou a cabea, concordando.
T.J. colocou uma colher de mingau na boca de Charlie.
	Coma, garoto. Isto vai fazer crescer plos no seu peito.
Pelo menos, ouvi dizer. Abra a boca, moleque. Vamos.
Em princpio, Charlie ofereceu resistncia, mas logo aceitou a comida.
Enquanto enchia outra colher com o mingau, T.J. continuou:
	Apesar de tudo, Callie, ainda no atingi a idade em que uma mulher atraente no desperta mais...  A pausa foi premeditada e provocante  ... reaes em mim.
	T.J., aposto que, mesmo  beira da morte, jamais perder a chance de brincar e de flertar, no ? Voc no tem jeito mesmo.  Sorriu.
	E justamente o que mame sempre diz.  Levantou-se.
 Acha que est em condies de cuidar do garoto sozinha?
	Sim. Chamarei se tiver problemas.
	OK. Mas no se apavore. Siga exatamente as instrues.
 tudo uma questo de rotina.  Segurou uma mecha dos cabelos dela.  Lembra-se de tudo?
	Sim. Manterei a calma, T.J. No se preocupe.
	Ambos estamos preocupados, Callie.  Seus lbios se contraram.  Callie, quero... Bem... obrigado.
	O qu?
	... Voc aqui em casa ontem a noite.  Ergueu os ombros.
	Foi muito bom no ficar sozinho. Bem... O que quero  agradecer por poder contar com sua companhia. Por alguns dias.  isso a.
T.J. precisava dela.
Callie nunca imaginou T.J. admitindo que precisava de algo ou de algum. Porm, pelo filho, abandonava o eterno ar de zombaria, brincadeira e auto-suficincia.
	Charlie pode contar comigo  ela assegurou.
	Sei que no vai abandon-lo, Callie. Mas no foi bem a isso que me referia.
Callie o olhou curiosa.
	No entendi.
	Droga! Acho que nem eu mesmo sei direito a que me referia. Na verdade, no era nada de importante. Oua, doura, pode esperar at hoje  noite ou amanh para buscar seu carro? Telefonei para o Sea Grape e pedi a Tugboat para ficar de olho nele.
	Amanh est timo.  Embora curiosa para saber o que T.J. tentara dizer, ela no insistiu.  T.J., gostaria de ir ao mercado. A despensa est vazia e precisamos comer.
Ele parou na porta da cozinha.
	Pedi para Vera fazer compras antes de ir embora.
	O que voc tem comido, hein, cowboy? Hambrgueres?
	Mais ou menos. Fast food. Costumo parar em alguma lanchonete e comer qualquer coisa.
	Nada esperto. No sei como nunca adoeceu. J pensou nos transtornos que causaria?  Callie surpreendeu-se com as prprias palavras. Afinal, no ligava a mnima para a ideia de T.J. doente, incapaz de mover-se, enquanto Charlie chorava desesperado no bero.
	Sim.  A expresso dele era indecifrvel, mas Callie apostaria que considerava essa possibilidade.
	Posso usar a caminhonete?
	Olhe, poderemos ir para a cidade  tarde. Assim, faremos as compras e trazemos seu carro para a fazenda. OK?  O sorriso franco e envolvente no a enganava mais.
A adolescente no conseguira enxergar alm daquele sorriso. A mulher via angstia e solido estampadas nos olhos frios.
O rosto iluminado e charmoso enganara a garota. As mgoas cuidadosamente escondidas do homem tocavam a alma da mulher, tornando-a vulnervel, destruindo suas defesas com a mesma facilidade com que o filho destrura.

CAPITULO VI

Cally brincou e cantou para distrair Charlie. 'Leu histrias de um livro de Richard Scarry que encontrara na estante. Picou o dedo dele para testar o sangue, aplicou-lhe insulina. Alimentou-o. Limpou-o, trocou fraldas. E trocou fraldas novamente. E de novo. E outras vezes mais. Charlie cheirava a loo e talco.
Engatinhando no cho da cozinha atrs de Charlie, concluiu que as crianas eram mquinas em constante funcionamento.
Pressionando os dedos nas faces do beb, tentava reaver uma pedao de fita adesiva que ele colocara na boca. At ento, no tinha a menor ideia de quantos objetos uma criana poderia provar por minuto.
Conversou com Charlie sobre T.J., falando do rapaz de vinte e dois anos que entrara sua vida e em seu corao.
	Eu servia s mesas no jantar, Charlie, e seu pai sentou-se, bebeu oito copos de ch gelado e me deu cinco dlares de gorjeta. Acredita que ainda me lembro da quantidade de copos que ele bebeu?
Callie tranara os cabelos. Charlie agarrou uma das tranas.
	Oh, Charlie! Fiz algo terrvel para seu pai. Estou tentando me retratar. Ele nunca me perdoar se souber o que fiz. Por isso, jamais poderei lhe contar, querido.  Limpou a boca do beb. As pessoas cometem erros, Charlie. Grandes, grandes...
Charlie abriu os braos.
	Grandes  ela repetiu.  Voc  to grande!  Abriu os braos tambm. Charlie juntou as mos, tornando a abri-las em seguida. Callie notou um ponto de sangue no local onde tirara a amostra.  Oh, Charlie... no faa isso comigo. Gostaria...  A voz soou to intensa que o beb se retraiu.
Depois de um passeio pelos arredores da casa, Callie deu a mamadeira para Charlie, antes do sono da tarde.
	Charlie, creio que voc ser um conquistador como seu pai.  Observava-o dormindo no bero, rodeado por bichos de pelcia.  Ah, querido. Gostaria que sua me pudesse v-lo. Ela o teria amado muito. Voc precisa de uma me, Charlie, no de mim. No ficarei aqui por muito tempo. Tampouco as governantas. No  a mesma coisa, ?  Acariciava os cabelos macios do beb.
Assustou-se com a batida da porta. Charlie acordou.
	Hei? Algum em casa?
Charlie segurou nas grades do bero, numa tentativa de ficar em p. Ansioso, olhou na direo de onde viera a voz.
	Da-da... Ah-bah!  Com a mesma intensidade, fitava Callie, como se pedisse para ir ao encontro do pai.
	Muito bem, rapazes. Desde cedo adquirem o hbito de pensarem que estamos  disposio de atend-los no ato.  Tirou-o do bero.  E eu colaboro para que continuem pensando assim, no?
	Hei, garoto. Hei, Callie.  T.J. entrou no quarto.
Sua roupa estava suja e as botas empoeiradas.
Callie reconheceu algo poderosamente msculo no modo como a olhava. As pulsaes se aceleraram. O rosto enrubesceu. O sangue despertava em seu corpo. O calor queimava a pele e os cabelos. Tinha a impresso de que estouraria a qualquer momento.
T.J. tirou Charlie dos braos dela.
	Como est o meu amigo?
Com os braos vazios, Callie cruzou-os.
	Otimo. Eu o mimei o dia inteiro.
	Ento,  esse seu plano?  Tocou no nariz dela com a ponta do dedo.
	Como adivinhou?  Seguiu pai e filho at a cozinha.
	Eu a conheo, Callie.
Ela desviou o olhar. De imediato, T.J. arrependeu-se do que dissera. No queria provoc-la. Apenas brincar. Mas estava sujo, faminto e estupidamente feliz por v-la com Charlie nos braos, que no mediu a extenso de suas palavras.
	Tem ch gelado. Aceita?  ela perguntou, abrindo a porta da geladeira.
	Sim.  Pegou o copo que Callie lhe oferecia. Bebeu o lquido gelado de um s gole. Estendeu-lhe o copo.  Mais, mulher, mais!
Callie balanou a cabea.
	Suponho que aquele velho ditado esteja certo.
	Que velho ditado, doura?  Tocou as faces dela com o copo gelado.
	Tal pai, tal filho.  Enxugou o rosto com o dorso da mo.  Seu filho, T.J. Tyler, demonstrou uma grande tendncia para dar ordens s mulheres.
	Verdade?  Bebeu o segundo copo de ch e o colocou na pia.  Bem, Calliope Josephine, voc  uma mulher que sabe falar mais alto. Voc no  do tipo que se deixa dominar com facilidade. Ser capacho de um homem no combina com sua natureza, doura.  Virou Charlie de frente para ela.  Ela no parece uma dama com personalidade prpria, garoto? Veja o brilho dos olhos dela, Charlie. No  o brilho dos olhos da mulher com quem sonhou encontrar?
Charlie atirou-se para Callie. T.J. sentiu o mesmo impulso. Queria agarrar-se a ela tambm. Charlie pousou a mo no seio de Callie.
	Charlie, garoto felizardo!  balbuciou, enquanto Callie corava.
	Vamos ao mercado ou no?  ela indagou embaraada.
	Antes, preciso de um banho e arrumar a sacola de Charlie.
	J coloquei a sacola com mamadeiras, leite em p, glicose, insulina e fraldas no cesto de Charlie.
	Que mulher!  Assegurando-se de que Callie o ouviria, falou num tom malvolo para Charlie:  Ela custa mais caro do que prolas. Ou diamantes.
	T.J.!
Deixando Charlie nos braos de Callie, T.J. afastou-se. Encostando a cabea do beb em seu rosto, ela murmurou:
	Vamos trocar de roupa para passearmos de carro.  A voz enrouquecida soava como uma cantiga de ninar.  De caminhonete  corrigiu, alisando a face na de Charlie.   a mesma coisa, querido. Voc vai adorar.
T.J. sentiu um n na garganta. O rosto de Callie estava sereno e sonhador. Vendo-a com Charlie nos braos, pensou em Suzy, porm, seus olhos se enchiam com a figura de Callie.
Vendo-a suspirar enquanto beijava o rosto de Charlie, T.J. desejou eternizar aquele momento.
Seus sentidos se inebriaram com o perfume da pele, dos. cabelos, do corpo de Callie.
	Volto logo  ele sussurrou, caminhando em direo ao banheiro.
Durante o trajeto at a cidade, Callie permaneceu com a mo sobre o peito de Charlie.
T.J. se emocionou. O destino afastara de Charlie a presena da me.
	Se tiver muitos assuntos para resolver, deixe-nos, a mim e a Charlie, no mercado. Ou ento, leve-o com voc.
	Por que no ficarmos juntos?  T.J. sugeriu, relutando em permitir que Callie se afastasse. Seria muito mais lgico e prtico irem direto buscar o carro dela. Depois, enquanto Callie se ocupasse com as compras, ele resolveria seus compromissos. E, voltariam para a fazenda, separadamente, assim que se liberassem.
Porm, T.J. no queria isso.
Haveria muito tempo para compras e viagens solitrias, quando ele e Charlie ficassem de novo sozinhos.
	Se prefere assim...  Callie franziu as sobrancelhas. Mas...
Era exatamente o que ele preferia. No, queria.
Callie fazendo compras era um modelo de organizao. Tirou uma lista da bolsa e, com segurana, ia direto e somente nos produtos que anotara. No andava a esmo pelo mercado, tampouco se detinha em inutilidades.
Porm, quando passaram pela prateleira de sapatos infantis, T.J. riu sozinho. Callie segurou um par de tnis vermelhos. Examinou-os por alguns instantes, para depois recoloc-los no lugar. Pegou-os novamente, lanando um olhar inquiridor para T.J., como se esperasse um sinal de aprovao.
T.J. era um homem que sabia quando manter a boca fechada.
Mas sorrira quando a vira examinando os tnis. .
Tnis vermelhos!
	Charlie, as mulheres gostam de decidirem por ns. Escolhem nossas roupas, obrigando-nos a usar as fantasias mais incrveis. Voc no sabe o que o espera, garoto.
Conferindo o preo, Callie segurou os tnis, decidida a pag-los com o prprio dinheiro. T.J. tentou impedi-la.
	No  respondeu categoricamente.   um presente pela hospitalidade. Para meu anfitrio.
	Agradea, Charlie.
	Ah-bah  o beb resmungou com educao.
	Sei, sei  T.J. se queixou diante do riso de Callie.  Ele s emite sons. Que termo mame usaria?  Pegou o cesto e quatro sacolas de plstico.  Sim... vocalizar.  isso que Charlie est fazendo. Mas, hei,  s o comeo, certo?
Folhas de carvalho cobriam o carro de Callie. T.J. deixara o cesto com Charlie no banco da picape. Inclinado na janela do carro, esperou at que Callie ligasse o motor.
	Voc me segue?
	Talvez  respondeu com ar travesso. Engatou a marcha.
Com passos lentos, T.J. voltou para a caminhonete, triste pela viagem solitria at a fazenda.  At mais, cowboy.
Callie seguiu na frente de T.J. at sarem da ilha e a estrada principal atingir a zona rural. Ento, deu-lhe passagem.
T.J. buzinou e acenou em agradecimento. Pelo retrovisor, acompanhava o desempenho de Callie, num seda azul de duas portas.
Percebia que ela queria acelerar, aumentando a velocidade. Preferia que Callie estivesse a seu lado para poder adverti-la pelo modo de dirigir. Em vez disso, conversava com o filho.
	Sabe, Charlie, ela  o que costumo considerar como uma mulher auto-suficiente. Callie  uma autntica mulher dos anos noventa, garoto. Mas no permita que o faa de bobo. Ela no  to forte quanto deseja que acreditemos. Seu pai sabe das coisas, Charlie. Ela prepara aquela cena, porm, voc deve surpreend-la quando no souber que est sendo observada, Charlie. E ento, s ento, entender o significado das minhas palavras.  Acariciou a barriga de Charlie.  Sabe o que me intriga? Aquela sombra nos olhos dela, Charlie. Preste ateno. A srta. Callie  toda pose e classe, mas h muita tristeza tambm. Juro, Charlie, como vou descobrir o motivo daquele olhar triste. Pode apostar todas as suas fichas no seu velho pai, garoto.
Os faris acesos do carro de Callie brilhavam como olhos no retrovisor. Uma presena quase fsica na cabine da picape.
Assim que chegaram  fazenda, T.J. levou o cesto de Charlie para a cozinha. Callie tirou as sandlias, lavou as mos e verificou as horas.
T.J. a deteve quando ia pegar o kit de insulina.
	Deixe que eu cuido disso. Prepare o jantar.
Um brilho de alvio surgiu nos olhos dela. T.J. entendia. Lembrou-se do primeiro dia sozinho com Charlie. Callie tambm tivera um dia difcil.
Porm, ela no se queixara.
Nunca fora de se lamentar. Callie escondia seus pensamentos muito bem.
T.J. terminou de testar o sangue de Charlie e, danando pelo hall, levou-o para a banheira de plstico. Encheu-a com a gua do chuveiro. Sentado na banheira, Charlie se divertia com os brinquedos, espirrando gua por todos os lados.
	O que h entre os garotos Tyler e a gua?  Callie
entrou no banheiro trazendo uma toalha.  So meio-peixes?
	Mergulhe conosco e saber, doura.  Com as mos em concha, atirou gua em Callie.  Esta  uma das blusas lavveis  mo que comprou para a lua-de-mel?
	Atrevido!  Jogou-lhe a toalha.  A comida est pronta, rapazes.
T.J. enxugou e trocou Charlie. Na cozinha, enquanto Callie arrumava a mesa, ele deu continuidade  rotina noturna do filho, que morria de sono.
Quando Charlie tinha um dia agitado, T.J. redobrava os cuidados com a alimentao, devido ao espao de tempo entre as injees e as refeies. Poderia ocorrer uma reao se o beb dormisse sem estar bem alimentado. Duas da madrugada era o horrio crtico. T.J. acostumara-se a acordar automaticamente a esta hora, mantendo-se em alerta.
Quando Charlie engoliu a ltima colher da sopa, T.J. tirou-o do cadeiro.
	Diga boa-noite, Charlie.  T.J. movimentou o brao do filho num aceno de despedida.
	Boa-noite, Charlie. Durma bem.
Callie guardou o kit no armrio. T.J. retornou e Callie j havia colocado* uma travessa com salada e dois pratos com espaguete sobre a mesa.
	Voc gosta mesmo de espaguete, no?
	Massa, cowboy, massa! Faz bem para voc.
	Sim, mas gosto tambm de carne. Sou um rapaz em crescimento, Callie. Preciso de uma superalimentao  falou num tom de lamria, j comendo o macarro com gosto, Um rapaz em crescimento que tem cuidado da superalimentao em lanchonetes, fast foods... Ah, j entendi!
	Nem quero lembrar...
	T.J.?
Pela entonao, ele sabia que Callie tinha algo importante para falar. Era muito cuidadosa com as palavras e mais ainda na abordagem de certos assuntos.
	Callie?  Pousou os talheres no prato.  V em frente encorajou-a.
	Deveria ter-lhe perguntado antes, mas a situao  muito delicada.  Serviu-se de algumas folhas de alface.
	Que situao, doura?
Callie mastigava distraidamente. T.J. temeu que desistira da conversa.
	Explique-se melhor, doura  insistiu.
	Telefonei para James. Hoje. Enquanto Charlie dormia.
	Sim?  T.J. empurrou o prato com a ponta dos dedos. Entendo o delicada, mas ainda no consegui distinguir a situao.  Afastou o prato para a esquerda. Callie no usava o anel de James. No notara antes.
	Ele quer conversar comigo. Acho que  uma boa ideia.
	Ah!  Empurrando a cadeira para trs, esticou as pernas. 	Voc vai falar com ele, Callie Jo?
	Amanh.
	Onde ser o encontro?
	Depende de voc, T.J.  As mos dela tremiam.
T.J. tambm tremia. Concedeu-se um segundo para recompor-se, antes de perguntar com voz firme:
	No entendi, Callie. O que sua conversa com James tem a ver comigo?  A despeito dos esforos, a voz no soou to firme quanto desejava.  Por favor, explique-me.
	Gostaria de conversar com James aqui, na fazenda. Assim, a rotina de Charlie no ser afetada.
	Oh, quanta nobreza, doura! Pensou em Charlie!  sorriu. Belo gesto, Callie.
	Devo uma explicao a James.
	Tenho a impresso, doura, de que deve a muitas pessoas. 	Ergueu-se, com necessidade de mover-se, de extravasar a energia que crescia dentro dele.
	Bem, marcarei para encontr-lo na cidade.
	No!  Queria conhecer o homem que presenteara Callie com um anel que poderia alimentar uma nao pobre por um ano inteiro.
Callie tambm se levantou.
	O que fao, ento, T.J.? Que vou encontr-lo, j  certo.
Aqui ou na cidade?
	Na cidade no. Na fazenda. Voc est certa com relao  Charlie.  Tirou um litro de leite da geladeira.
	Voc est com fome, T.J. Esta situao no tem nada a ver com voc. Portanto, no entendo sua reao. James merece uma explicao.
	Quando James chegar?  Ignorou o comentrio dela.
	Amanh. Cinco da tarde. Talvez antes, se ficar livre.
T.J. encheu um copo com o leite.
	Do que o seu James deveria se livrar, doura?
	Tribunal.
	 advogado?
Ela concordou.
T.J. bebeu metade do leite.
	Voc tem se mostrado muito reservada sobre James e sobre a sua vida desde que... partiu de Tarpon City. Por qu? Ser que esconde segredos escandalosos, doura?
Callie empalideceu.
	No.
	Por que no acredito em voc, Callie? Seus olhos doces, suaves, so todo inocncia, mas, sinceramente, a mim no convencem.
	No estou escondendo nada.  Para cada passo que T.J. avanava, ela recuava dois.
	Creio que tem boas razes para voltar ao local do crime. 	Prendeu-a entre a geladeira e a porta da despensa. Os olhos dela brilhavam de raiva.
	Para trs, cowboy  desafiou-o com o queixo erguido. Isso no ser bom para ns.
O brilho de raiva atraiu-o. Despertou sua prpria fria. Colocou uma mo na maaneta da porta. A outra no refrigerador. Roou os lbios nos dela.
	Mas costumava ser bom demais, Callie. Lembra-se?
Pressionando os lbios, beijou-a quase com violncia. Para sua surpresa, Callie entreabriu os lbios, correspondendo com prazer e raiva. Seu perfume o invadia. O gosto da boca, a suavidade dos lbios dela movendo-se sob os seus, despertavam seu corpo para o prazer e o desejo.
Callie tocou-lhe a face, enquanto o beijo continuava cada vez mais ntimo e exigente. T.J. puxou-a at os corpos se tocarem, amoldando-se num s.
	T.J.  ela murmurou.
Ele sentiu um arrepio percorrendo-o da cabea aos ps.
	Oh, Callie.  As mos atrevidas contornavam a curva dos quadris. Gemendo, queria mais. Ansiava por sentir a maciez da pele de Callie em suas mos, livres da seda e dos jeans.
	T.J.., isto no  bom.  Pousou as mos no peito dele, introduzindo os dedos entre os botes, tocando-o.
	Oh, doura, isto  muito bom  resmungou. Erguendo-a nos braos, levou-a at uma cadeira. Sentou-a no colo, de frente para ele, uma perna de cada lado.  Muito bom.  Beijava-a no pescoo.  Oh, Callie.  mais do que bom.  Desabotoou os primeiros botes da blusa. Pela abertura, viu o suti azul cobrindo os seios. Beijou a pele macia.  Callie, voc est me matando.
Abraados, deitaram-se no cho da cozinha. Entorpecido, T.J. beijava os seios dela com avidez. Callie gemia, sucumbindo aos prazeres que ele lhe proporcionava.
De repente, pararam.
T.J. abriu os olhos. Callie o fitava confusa.
	Charlie precisa de voc. V.
	Resolveremos isto, Callie. Sabe que precisamos. Cedo ou tarde, acabaramos nos envolvendo novamente.  Ergueu-se.
Estendeu-lhe a mo, ajudando-a a levantar-se tambm.
Correu para o quarto. Acendeu a luz. Charlie choramingava preso entre os lenis. No estava plido. Apenas mal acomodado.
Ouviu os passos de Callie.
	Como ele est?
T.J. ajeitava os lenis.
Bem. As vezes esqueo que nem sempre choro noturno significa crise.
Apagou a luz. Callie se aproximou, parando ao lado de T.J. Permaneceram algum tempo em silncio, observando o sono, agora tranquilo, de Charlie.
Foi ele quem falou primeiro.
	Desculpe por t-la beijado num momento de raiva, Callie Jo  murmurou abraando-a.  Voc merecia algo melhor.
 Tocou-lhe o lbulo da orelha com a ponta da lngua.
	Ambos merecemos algo melhor, T.J. Velhos hbitos podem nos prejudicar se no formos cuidadosos.
	Foi o que aconteceu na cozinha? Um velho hbito?  Beijou a base do pescoo.
Callie tremeu.
	Sim. Acho que foi exatamente o que aconteceu. Voc estava furioso. Ambos estvamos suscetveis a...  Calou-se.
	Suscetveis a que, Callie? A um tempo em que ramos tudo um para o outro? A um tempo em que poderia beij-la e toc-la o suficiente para nos satisfazermos?  perguntou, sabendo que ela estava certa.
	Creio que sim.  Afastou-se, com os braos cados ao longo do corpo.  Acho que nos deixamos levar pelo passado, pelo hbito e pela familiaridade, T.J. Pela raiva. Talvez pela solido. Lembramos o que fomos e esquecemos o que nos tornamos hoje.
	Quem  voc hoje, Callie?  Segurou-lhe a mo, entre laando os dedos nos dela.  Em quem se tornou hoje, Callie?
Ainda de mos dadas, conduziu-o para a varanda.
	Daqui poderemos ouvir Charlie.  Apontou para a janela do quarto.  Este  um bom lugar para conversarmos.
T.J. sentou-se no porto, deixando-o balanar lentamente. O rudo das ferragens quebrava o silncio.
Callie acomodou-se na ponta de uma cadeira. Olhou para o cu.
	Amanh ser um dia bonito. Sempre gostei desta fazenda, T.J. e da sua famlia.  um timo lugar para as crianas crescerem. Seu filho herdar uma propriedade muito valiosa. Charlie saber o que a fazenda significa. Nunca precisar sentir-se um intruso num mundo onde a linguagem  a mesma, mas o significado  muito diferente.
	Do que voc est falando, Callie? Se as coisas tivessem sido diferentes, voc teria vivido aqui. Este teria sido seu Ia tambm. Sua herana, tanto quanto minha.
Ela sorriu o sorriso mais triste que T.J. jamais vira.
	Neste caso, ento, voc no teria Charlie.  Callie olhou para o cu antes de prosseguir.  Voc mudaria o passado sabendo que hoje  diferente? Charlie no estaria dormindo naquele bero.
T.J. no respondeu. Porque no havia resposta.
	 por isso que insisto em esquecer em quem nos tornamos Voc tem responsabilidades com seu filho, obrigaes com a famlia. Eu tambm tenho minhas obrigaes. James. Meu trabalho. Amigos. Talvez tenhamos nos deixado levar pelas lembrancas do passado, mas acabou. O que quer que tenha provocado nossa... exploso, no h mais nada a fazer com nossc presente.
	No concordo, Callie. Mas esta noite estou muito desgastado para discutir o assunto. Tudo o que sei  que a desejei demais alguns minutos atrs e que teria sacrificado tudo por voc.
	Menos Charlie.  A mgoa inexplicvel na voz dela o confundiu.
	Menos Charlie  repetiu.  Creio que estamos falando de assuntos diferentes, Callie. Voc no quer admitir o fato de que fomos arrastados por um sentimento muito forte. Prefere fingir que apenas estvamos atendendo a algum chamado do passado. No tente culpar o passado por estarmos tremendamente ansiosos por nos tocarmos, nos sentirmos, a ponto de no conseguirmos nos conter. Acha que conseguiramos nos conter, Callie?
	No sei  ela admitiu.
	Porque eu no teria conseguido. Cada clula do meu corpo a desejava, doura. E continua desejando, enquanto voc vem com essa histria de quem fomos e quem somos, em vez de encarar o que est acontecendo entre ns. Alis,  o que sempre acontece quando estamos perto um do outro, Callie. Por que no tenta ser suficientemente honesta para admitir essa verdade?
	Estou tentando mostrar-lhe que seu filho  o centro do seu mundo, T.J., e que nunca permitir que alguma coisa in terfira entre vocs.
	Claro que no.
	Nunca perdoar quem magoar Charlie, no ?  Callie caminhava pela varanda, atormentada por uma angstia que no queria, ou no podia, dividir com ningum.
	Sim.  Aproximando-se, segurou-a com fora pelo brao, obrigando-a a parar.
As palavras dela o surpreenderam.
	E se voc o magoasse, T.J.? Poderia perdoar a si prprio?
	No. Mas nunca o magoarei.
	No de propsito, claro. Involuntariamente, quero dizer. Se isso acontecesse, como agiria?
	No sei, Callie, no sei.  Queria amenizar a dor que lia nos olhos dela, apagar o sofrimento estampado no rosto bonito.
Impossvel, porque ela se recusava a dar-lhe a chave que abriria a porta para libert-la do segredo que tanto a atormentava.

CAPITULO VII

No caf da manh do dia seguinte, Callie evitava os olhares intensos de T.J. Movendo-se rapidamente pela cozinha, ela preparou o mingau, testou o sangue de Charlie, anotou na tabela, aplicou-lhe insulina. T.J. observava em silncio, sorvendo goles de caf.
Sabia que T.J. ainda tinha muitas perguntas, mas ela falara muito mais do que planejara. No daria mais abertura para novos interrogatrios.
Porm, o modo como a tocara, como a beijara... Ah, queria que aqueles momentos voltassem. Queria perder-se novamente nos braos de T.J., mesmo que tudo no passasse de um engano, da confuso passado-presente.
Impossvel. O peso do passado os destruiria. No poderia fraquejar diante do prazer que T.J. lhe oferecia em cada toque, cada carcia.
Contudo, ela queria.
Era suficientemente honesta para admitir para si mesma o quanto ansiava por ficar com T.J., sentir o contato de pele com pele, a presso dos lbios dele nos seus. De corresponder com a mesma fora aos carinhos arrebatadores, de alimentar com o mesmo fogo o desejo que crescia dentro dos corpos ardentes.
At seus ossos doam, consumidos pelo desejo de toc-lo e ser tocada por T.J.
Temia cada segundo que passava ao lado dele.
To logo terminou suas tarefas, saiu da cozinha, deixando pai e filho a ss. Voltou quando T.J. avisou:    '
 Estou indo. Charlie est no cercadinho. Voltarei  tarde.
Antes de James chegar.  Alguma coisa no seu tom de voz, fez com que as palavras soassem com uma ameaa.  Tchau.
	Tchau.  Aproximou-se de Charlie.  Querido...
O beb se retraiu. Os lbios tremeram, os olhos se encheram de lgrimas.
	Oh, meu amor, no vou machuc-lo. Por enquanto, nada de injees. Olhe, hoje o dia ser maravilhoso.  Pegou-o no colo e o beijou pela primeira vez. Charlie esfregou o rosto contra os lbios dela. Callie o abraou, perguntando-se onde encontraria coragem para deix-lo, quando chegasse o momento.
O dia passou rpido. Callie nem teve tempo para pensar. Em James ou no que lhe diria. Nem tempo para lamentar tudo o que no podia contar a T.J.
Enquanto Charlie dormia, ligou para o escritrio, informando o nmero do telefone da fazenda e adiando alguns compromissos para o final do ms. Felizmente, ainda estava em frias. Anotou as ligaes e o valor, a fim de reembolsar T.J.
A tarde serviu o mingau de Charlie. Ao introduzir a colher na boca do beb, ouviu um barulho estranho.
	O que  isso?  Friccionou o dedo indicador na gengiva do beb.  Hei, adivinhe, Charlie! Dois dentes apontando! No   toa que voc coloca na boca tudo o que v pela frente. Espere at o papai saber!  Vasculhou os brinquedos at achar um de plstico mais resistente.  Pronto, querido, experimente este. Melhor?
Cantarolando, comeou a preparar o jantar.
Ainda no entardecera quando T.J. retornou. Charlie ainda dormia. Pendurou o chapu na despensa e descalou as botas.
	Vacas  resmungou ao ver Callie torcendo o nariz. Examinou-a dos ps  cabea.  Bonito vestido. Bem metropolitano. Como voc, alis. James chegou?
	No.  Alisou a saia verde de crepe, tentando disfarar o nervosismo. Escolhera um vestido de gola alta e mangas compridas por lhe parecer mais discreto. Mas o olhar de T.J. conscientizava-a da transparncia do tecido.
Bastou um leve movimento de sobrancelha de T.J. para Callie sentir a pele arder e queimar.
James nunca lhe provocara essas reaes. Com ele, no sentira nada mais forte do que segurana e conforto.
Acreditara que conforto e segurana eram preferveis a essa comicho que a perturbava tanto todas as vezes que se aproximava de T.J.
J sentira essa comicho antes.
E se queimara.
Convenceu-se, ento, de que conforto era melhor.
Acreditou que era tudo o que queria.
De repente, mais viva do que h anos no se sentia, percebeu o quanto estava errada.
Tarde demais.
	Ele no tem muita pressa, no , doura?  T.J. atravessou o hall direto para o banheiro.
Voltou com os cabelos midos, calas jeans e camisa branca com as mangas dobradas at os cotovelos. Verificou as horas no relgio de pulso.
	Quais so seus planos, Callie? Voc o convida para jantar?
Ou eu convido?
T.J. no a fazia sentir-se confortada. Nem segura.
	James no ficar para o jantar. Tem compromissos em Spring Hill para logo mais  noite.  Alisou novamente a saia. T.J. acompanhou os movimentos.
	Nervosa? Se eu estivesse no seu lugar, tambm estaria nervoso. O que pretende dizer-lhe, Callie?
	No sei.  Ergueu os ombros.  A verdade.
	E, qual  a verdade, doura? Tem certeza de que sabe?
Callie fuzilou-o com o olhar.
	Direi a verdade  repetiu.  Ele entender.
' Tem certeza?
	Absoluta. Tnhamos um bom relacionamento. Isto , temos, --- Caminhou at a janela.  James  um bom amigo.
	Fico feliz que tenha um amigo, doura, mas James me soa um tanto aborrecido... se me permite uma opinio  falou com voz lnguida e expresso indecifrvel.
	Dispenso sua opinio. James  uma das pessoas mais fascinantes que conheo. Amizade  uma base slida para um relacionamento. Para um casamento.  Ajeitou a gola do vestido.
	Sim, amizade  importante, porm, um casamento necessita muito,mais do que simples amizade. No havia o usual toque de brincadeira no comentrio.
	Talvez, mas James e eu nos gostvamos muito. Temos as mesmas preferncias, as mesmas...
	No acha que est muito defensiva, doura?  Cruzou os braos e, com passos lentos, foi para a sala de visitas. Parece que chegou um carro...
Callie ouviu o rudo do motor possante. Juntos, viram o carro entrar e parar no ptio em frente  porta de entrada.
	James?  T.J. perguntou.
	James.  Callie respondeu respirando fundo.
T.J. aplaudiu.
	Precisamos apenas do pblico para anunciarmos "Sobem as cortinas. Incio de espetculo." Callie, voc percebeu que esta cena tem requintes de alta comdia?  Ele sorriu com malcia.
	Nem pense em transform-la num pastelo. Estou avisando.  No sabia o que esperar do comportamento de T.J. Com sua mente de garoto travesso seria capaz de tudo, tudo.  Eu o magoei e no quero que o trate como um idiota. Ouviu, T.J.?
	Sim  falou com indiferena, enquanto, pela janela, observava James caminhando em direo  varanda.  Sim, Callie.  Lanou-lhe um olhar significativo, que transmitia diverso e fome.
Pela centsima vez, Callie alisou a saia. T.J. captou o gesto a tempo.
Soou a campainha. Inclinando-se, T.J. beijou Calie, pressionando os lbios nos dela.
	Atenda  porta, doura  murmurou.
James vestia-se com formalidade e elegncia. Terno azul escuro, camisa azul clara, gravata em perfeita harmonia de cores, indicavam que era um homem preocupado com a aparncia. Desde o incio, Callie admirara tal qualidade. Porm, ao lado de T.J., James parecia perder todo colorido e vitalidade.
	James, quero que conhea T.J. Tyler, um velho amigo da famlia  disse, ignorando o brilho malicioso nos olhos de T.J.  T.J., este  James Davis.
	Voc tambm  um velho amigo da famlia?  perguntou num tom ingnuo, apertando a mo que James lhe estendia.
James olhou-o meio confuso.
	No, no conheo a famlia de Callie. Como vai... T.J., no? 
Irritada com o comentrio de T.J., Callie falou com rispidez:
	James e eu conversaremos l fora. Se quiser saber como foi o dia de Charlie, verifique as anotaes na tabela ao lado do refrigerador.
Saiu com James, ciente de que T.J. estaria na janela, observando-a. Sentaram-se sob o carvalho.
Como Callie previra, T.J. correu para a janela e, encoberto pelas cortinas, assistia a distncia.
Viu Callie entregando algo para James, que se recusava a aceitar. Callie insistia, James negava com um movimentos de cabea. T.J. apurou os ouvidos, mas no conseguia ouvi-los. No podia nem pensar em sair e correr o risco de ser surpreendido por Callie.
	Guarde o anel, Callie. Comprei-o para voc. No quero. E seu.
	James, voc sabe que no posso ficar com o anel. No  mais meu.  Colocou o anel no bolso do palet de James.
Ele ergueu os ombros.
	Eu o guardarei para voc. Poder mudar de ideia. Talvez, com o tempo, pense melhor no assunto.
	No, James, no mudarei de ideia. Sinto muito por ter permitido que as coisas chegassem a esse ponto.
	Eu tambm. O que aconteceu, Callie? No acreditei quando li sua carta. Quinze minutos mais e no teria me encontrado.  Os olhos castanhos estampavam perplexidade.  No entendo. Nunca imaginei que fosse to caprichosa, Callie. Ajeitou o n da gravata.
Desculpe, James. No ltimo minuto, compreendi que nosso casamento no daria certo. Acreditei, tinha esperanas mas, no caminho para a igreja, olhei no espelho e tudo o que vi foi angstia. Parei o carro, escrevi a carta e recomecei a dirigir. Nem voltei ao meu apartamento para trocar de roupa. Dirigi durante horas. Sem destino. No me importava para onde ia e, como um pombo-correio, voltei para casa.  Casa. Callie sentiu-se segura.
	Eu a deixei angustiada?  James enfatizou a palavra. Angustiada, Callie?
	Oh, No, James. Eu mesma me deixei angustiada. Minha atitude no tem nada a ver com voc. No sou a pessoa certa para voc. Se parar para pensar, perceber que na maioria das vezes nos comportamos como amigos e no como... namorados.  Segurou-lhe o brao.  Voc sabe o que quero dizer, James. No h nada entre ns, absolutamente nada, exceto amizade. Voc merece muito mais do que uma mulher que s tem amizade para lhe oferecer.  Respirou fundo.  Tenho certeza que acabaria me odiando.
James apertou a mo de Callie com fora.
	Jamais a odiaria, Callie. Aceito o que tem para me oferecer. Para mim ser suficiente.
	No, no ser suficiente. Voc no se contentaria com o pouco que tenho para lhe dar. Desejei am-lo, James. Am-lo com todo o meu corao e alma. Am-lo at o fim dos meus dias. Mas no consegui.
	Era isso o que esperava de mim? Um amor com essa intensidade?
	Sim. Porm, no havia percebido. Acreditei que queria exatamente o que tnhamos juntos. Afeto, amizade, companheirismo. Acreditei, James, mas no era suficiente. Deveramos ser mais importantes um para o outro. E no ramos. Fitou-o com ar desolado.  Voc pensava em mim quando no estvamos juntos?
Raramente pensava nele. A constatao a entristecia demais e  medida que a data do casamento se aproximava, a tristeza crescia, chegando  beira do desespero.
	Voc sentia realmente minha falta? Sempre?  Callie insistiu.
	Diante das circunstncias, Callie, prefiro no responder. Agora ficou muito claro que nossos sentimentos so muito diferentes. Se lhe disser que no vivo sem voc, acreditar em mim?
Apesar do tom de brincadeira contido na voz de James, Callie compreendeu que os sentimentos dele eram mais profundos do que imaginara. Ele apenas mantivera o relacionamento de ambos no plano que ela estabelecera.
	Oh, James, quero...  Inclinando-se, apoiou a cabea no ombro dele.
	Somos quem somos, Callie. No podemos mudar a essncia da nossa natureza.
Ela ergueu a cabea.
	Gostaria de ser a pessoa certa para voc, James. Do meu jeito, eu o amo, mas o estaria enganando se fingisse um sentimento mais forte, suficiente para sustentar um casamento, para construir uma vida a dois. Voc encontrar algum que o adorar e que correr para abrir a porta assim que ouvir seus passos...
	Callie, no exagere. Eu entendo. Sobreviverei. Voc tambm, querida.  Abraou-a.
James era to amigo, to protetor. Sentiria sua falta. Falta das longas conversas, do companheirismo. Enfim, sentiria falta de tudo que o envolvesse.
Inclinando-se, James a beijou. Os lbios frios beijavam onde T.J. a marcara com seu beijo ardente, sensual, antes de mand-la abrir a porta.
James ergueu a cabea e, com a ponta do dedo, contornou a boca de Callie. Sorriu debilmente.
	Acreditei que nosso casamento daria certo. Mas me enganei. Voc no sente nada por mim, no , Callie?
Callie sabia que acertara ao cancelar o casamento.
James a teria odiado.
Pior ainda. Ela acabaria por desprezar a si prpria.
Da janela, T.J. viu James abra-la. Conteve-se para no sair porta afora e esmurr-lo.
Limitou-se a esperar nos degraus da varanda at que Callie e James voltassem.
	Tudo bem?  T.J. perguntou.
Apesar de plido e visivelmente desolado, James sorriu.
	J vivi dias melhores, Tyler.
Callie tambm parecia infeliz, mas manteve a pose.
	O que gostariam de beber? James? T.J?
	Leite  T.J. disse de pronto, ansioso pelo prximo passo de James.
O sorriso dele mostrou-se divertido demais para o gosto de T.J.
	Para mim tambm est timo, Callie.
Callie entrou, deixando os dois homens a ss. Apesar de tudo, T.J. sentiu muita pena de James. Porque, embora Callie no soubesse, James Davis estava perdidamente apaixonado.
	Gosta dela, no?  T.J. foi direto ao ponto.
	Infelizmente, sim. Demais, para meu azar.  Os lbios de James se curvaram.  ramos amigos, entende?
	Sim, entendo. O que vai fazer agora?
	No sei ainda.  James avaliou a expresso de T.J. antes de acrescentar:  A propsito, o que voc vai fazer agora?
T.J. soltou uma gargalhada.
	Sabe que no sei?
Ambos riam quando Callie retornou carregando um bandeja com copos grandes, uma jarra de leite e um prato com biscoitos. T.J. e James se entreolharam, parando de rir. Em silncio, beberam o leite e comeram os biscoitos.
T.J. queria odiar James. Mas no conseguia. Difcil odiar o homem com quem dera boas risadas.
O homem era louco por Callie. Era gentil, educado, interessante. Poderia sustentar Callie e filhos. Se ela tivesse casado com T.J. anos atrs, como haviam planejado, sua vida teria sido uma eterna luta entre cuidar da fazenda e a preocupao financeira. James tinha condies para lhe proporcionar uma vida confortvel e luxuosa como jamais sonhara.
E James era brilhante.
Ele apenas olhara para T.J. para reconhecer um esprito afim. Companheiros de sofrimento. Sabia que T.J. beijara Callie e, numa avaliao que no durara mais do um segundo, compreendera o motivo.
T.J. no encontrava um nico erro nele. At mesmo as roupas formais estavam corretas.
Depois que James partiu, T.J. e Callie ainda continuaram na varanda.
	Olhe, doura. Se eu fosse voc, teria casado com James. Por que no casou?
' No podia. Abraou-a.
	Voc  perfumada, doura.  Cheirou-a na curva do pescoo. O nariz roou no crepe da gola.  Seda  melhor. Gosto de seda,  Ainda abraados, sentaram-se num banco.
T.J. apoiou as pernas de Callie em seu colo.  Assim est melhor.  Acariciou os joelhos dela.  Por que no pde?
T.J. insistia. James era o homem com quem Callie deveria ter casado. Mas no casara.
	No daria certo.
	Por que no? Gostei dele.  T.J. agora tocava diretamente a pele de Callie. Ela no usava meias de nilon. A descoberta o alegrou.  Voc tambm gostava dele.
	No basta gostar. Pensei que bastasse. Eu magoei James, T.J.  Fitando-o, enlaou-o pelo pescoo.  Oh, sim magoei James tambm.
	Sei, doura.
Ele sabia mesmo que no bastava gostar. Estivera casado durante oito anos, porm, fora um homem solitrio at o nascimento de Charlie. Suzy e ele no viviam bem h muito tempo e Charlie era o resultado de um das inmeras tentativas para salvar o que restara daquele casamento.
Tentaram. T.J. no fugira do compromisso.
	 difcil amar  Callie murmurou, apoiando a cabea no ombro de T.J.
	Concordo, doura mas, no decorrer da vida, no amar  muito mais difcil.
	Tudo o que sei  que no entendo nada. Nem a mim. Nem a James. Com certeza, nem a voc, T.J.
	Calma, Callie. No  o fim do mundo. Voc sobreviver.
	James disse a mesma coisa.
	No estou surpreso. Como o conheceu, Callie?
Os cabelos dela caam-lhe no rosto. T.J. ajeitou-os.
	Ele atuou como advogado do hospital numa ao contra um fornecedor de artigos ortopdicos. Eu fui uma das testemunhas.
	Quanto tempo namoraram?
O clima era de aconchego. T.J, esperara muito tempo pela oportunidade de conversar descontraidamente com Callie. Aquele era o momento. Precisava mant-la relaxada e confiante para que no percebesse para onde ele conduzia a conversa.
	Quatro meses.
Ora, no foi uma vida inteira, doura.  De novo, pousou a mo nas pernas dela.  Bem, voc no ser crucificada por no ter percebido antes que James no era seu prncipe encantado.  Com a ponta do dedo, traava um caminho que ia do tornozelo at o elstico da calcinha.
A cada milmetro que percorria, perdia um pouco da noo do assunto que pretendia abordar. O calor da pele macia conduzia seu pensamento em direes mais primitivas.
	Ainda sonha com prncipe encantado, Callie?  murmurou ao ouvido dela. Desejava saber a causa dos soluos noturnos, da tristeza estampada nos olhos verdes.
	Nunca sonhei, T.J.
Sem ter ideia do que provocava nele, com movimentos lentos, Callie o acariciava no pescoo.
	No? Nem mesmo na adolescncia?
	No. Sempre soube que jamais deveria depender de algum. S de mim.
	Que triste!
	Triste, no. Realista. No  nada divertido entrar no mar sem saber nadar. No poder contar com um espectador inesperado para jogar-lhe um salva-vidas e uma corda.  a lei da vida.
	Afundar ou nadar.  a sua filosofia?
	Por mim mesma  balbuciou.   como tenho sobrevivido.
	Como sobreviveu depois que deixou Tarpon City? Voc terminou o segundo grau, porm, somente o diploma do colegial no pagaria isto...  Correu a mo sobre a manga do vestido caro.  Ou isto...  Apontou para as sandlias italianas que Callie calava.
	Cursei a universidade, T.J.  Tirou as sandlias. Endireitando-se, colocou os ps sobre o banco. Apoiou a cabea nos joelhos.  O que mais deseja saber?
Mais uma vez, retrara-se. Com os ps firmemente calcados no banco, os braos ao redor das pernas, fitava-o. T.J. desviou o olhar.
	Como pagou a faculdade?
	Do modo mais tradicional. Trabalhando. Como garonete. Durante o vero, sinalizava as estradas de Chicago, com um capacete amarelo e duas bandeiras onde se lia "Devagar" e "Pare". Ganhei meus estudos T.J.., mas trabalhando at aguentar os olhos abertos. Foi assim que paguei a faculdade.
	Ah, Callie, como voc  forte!  Segurou um p descalo entre as mos.
	No tive alternativa. Voc mesmo disse "afundar ou nadar".  Tentou desvencilhar o p. Olhou-o pensativa.  Nunca permiti que fosse  minha casa, T.J. Lembra-se? Voc nunca se perguntou o motivo? Ou pensava que eu era apenas mais uma garota que morava do outro da cidade?
	Disse muitas vezes, Callie. Nunca a considerei uma garota inferior. Por que nunca acreditou em mim?  Cruzou os braos. No queria desviar o rumo dos pensamentos dela.
	Voc nunca questionou o motivo pelo qual somente o encontrava na cidade? Por que jamais permiti que me levasse em casa?
T.J. passou a mo pelos cabelos, friccionando a nuca.
	No, Callie, nunca. Eu vivia to feliz por estar com voc que no pensava em mais nada. A nica coisa que contava era sua companhia. Voc vinha  fazenda, ficvamos juntos.
Para mim era mais do que suficiente.
	Quer fazer uma pequena viagem amanh, T.J.?  Levantou-se num movimento rpido.
	O qu?
	Quero lev-lo a um lugar. Uma viagem no tempo. Ergueu o queixo.  Vem comigo?
	Sim, mas no vejo razo, doura. Passado  passado.  Parou ao lado dela. Segurando uma mecha de cabelo, beijou a pele sedosa do pescoo.
	No est interessado no que pretendo mostrar-lhe?
A indiferena contida na voz de Callie o intrigou. Ele a tocava, a acariciava, porm, ela se mantinha distante, como que protegida por uma parede invisvel.
	Oh, sim. Claro. Estou muito interessado, doura. Faremos juntos essa viagem ao passado. Porm, vou avisando desde j que no mudar em nada meus sentimentos.
	Talvez no, embora acredite que far com que entenda melhor aquela criana que fugiu como uma covarde, sem dar o menor sinal de vida e que nunca teve a decncia de explicar-lhe o que acontecera. Talvez a viagem seja necessria, por mim. No por voc, T.J. Gostaria que me acompanhasse. Se quiser,  claro.
	Que dvida! Vou sim.
Por mais que se mostrasse evasiva, por mais que se retrasse, por mais difcil que fosse descobrir o que se escondia sob a suavidade de seu sorriso, T.J. no pretendia perder essa oportunidade de ouro. Se descobrisse todas as respostas, se desvendasse o mistrio que envolvia Callie, ento, se libertaria dela.
Enquanto abria a porta para Callie entrar, uma dvida surgiu em sua mente. Uma vez que Callie voltara para sua vida, no tinha mais tanta certeza de querer libertar-se dela.
	James a beijou  disse, seguindo-a pela sala de visitas.
	Sim.
	Voc gostava dos beijos dele?  Enlaou-a pela cintura, obrigando-a a fit-lo.  James beija bem?
	Voc  muito intrometido, cowboy.  Um brilho de bom humor surgiu nos olhos dela.  No sou mulher de comentar o desempenho dos meus namorados.
	No?
	Nunca.
Os rostos estavam muito prximos.
	Otimo.  Beijou-a de leve, mordiscando o lbio superior. Aprecio muito essa qualidade nas mulheres.
	Mesmo?  murmurou. Entreabriu os lbios, correspondendo ao beijo.  E voc? Costuma comentar o desempenho das namoradas?
	O que acha, doura?  Os lbios se moviam sobre os dela.
	Acho que quer me beijar, cowboy.  o que estou pensando neste exato momento.
	Verdade?
	Verdade  ela repetiu.
	Otimo. Porque tambm aprecio esta qualidade numa mulher.
Afagando-o nos olhos, no nariz, no rosto, no pescoo, ela sussurrou:
	Voc gosta de mulheres, cowboy.
	Acertou, doura. Especialmente de voc.  Com o rosto dela entre as mos, beijou-a com sofreguido.
Callie correspondeu com o mesmo ardor. Naquele momento, a resposta foi satisfatria.
 noite, depois de um pesadelo, T.J. caminhava pelo hall. Ao passar pelo quarto do filho, viu Callie sentada numa cadeira ao lado do bero. No colo, Charlie tomava a mamadeira.
Callie embalava Charlie com uma cano de ninar.
Em silncio e emocionado, T.J. voltou para seu quarto, ouvindo o eco da voz de Callie durante o sono

CAPITULO VIII

Callie pegou as chaves do carro. ' Eu dirijo.
Esperava que Charlie contestasse, mas ele concordou.  OK.  Abrindo a porta, colocou o cesto de Charlie no banco traseiro.  Acho timo ter um motorista particular. Alm disso, j a vi dirigindo. Estou em segurana.  Sentou-se, fechando a porta.  Estou pronto.
	Ento, aperte o cinto.  Ligou o motor.  T.J., no respondi quando quis saber h quanto tempo no mantenho contato com minha famlia.  Parou na sada da fazenda. Esperou a passagem de um caminho para entrar na estrada principal.
	No esqueci.
Olhou-o de relance. T.J. esparramara-se no banco com o chapu enterrado quase at os olhos.
	Foi o que pensei. Achava que meu relacionamento familiar no era importante para o nosso namoro. Estava errada. Gostaria que entendesse meus motivos. Tinha medo de encar-lo.
	Medo de mim? Por qu? Sou incapaz de maltratar uma mosca!
	Voc era cinco anos mais velho. To seguro, autoconfiante.
Sem falar naquele seu charme irresistvel.  Lanou-lhe um olhar rpido.  S isso j era suficiente para assustar.
Empurrando o chapu com a ponta do dedo sorriu com ironia.
	Oh, sim, aquele legendrio charme transformou-me no que sou hoje. Um fazendeiro cansado, ranzinza e ultrapassado.
	Eu o considerava o mximo. E eu no era to forte assim.
	Voc tambm tinha sua fora, Callie. S que no sabia. Acho que todos sabiam, menos voc.
	T.J, nem imagina como era minha vida. Sua me me elogiava pelas minhas boas notas, mas ela era a professora e no uma das crianas da classe. As crianas podem ser cruis, principalmente quando se esforam demais para se mostrarem gentis. Ningum imagina o efeito nocivo dessa crueldade.
	Bem, doura, no pretendo discutir numa dia ensolarado de outubro. Voc tem a sua verso da histria. Eu a minha. Ambas so verdadeiras. Melhor levar-me a essa viagem pela mquina do tempo. Depois voltaremos para casa. Para a fazenda.
	OK.  Observava a sinalizao, ansiosa por saber o que sentiria ao deparar com os apartamentos de construo barata que haviam substitudo as fileiras de casas.
Os prdios novos ao longo do Tamiami Trail confundiram-na. Errou o caminho vrias vezes antes de encontrar a rua que procurava. A rua levava direto a uma escola primria, passando por uma rea arborizada. As rvores estavam mais frondosas.
O concreto se tornava cascalho. O cascalho em lama. Callie estacionou. Desceu do carro e caminhou alguns passos. Ainda existiam alguns dos barracos originais. Telhado de zinco, paredes encardidas. O terreno se inclinava para o pntano. As crianas brincavam e corriam. Descalas, nuas. Os pequenos corpos se juntavam sob os pinheiros e carvalhos.
T.J. parou ao lado dela carregando o cesto de Charlie. Caminharam pelo cho arenoso.
Callie tomava conta dos irmos para que no cassem no pntano. Voltava da escola. No caminho entre os casebres o calor era insuportvel devido ao zinco dos telhados.
Ela estudara.
Escondera-se entre as rvores, correra pelos caminhos emaranhados entre os barracos, brincara de selva atravessando o pntano, caindo na gua lamacenta cheia de peixes e cobras tambm. Como todas as crianas do barraco, esperava sua vez de remar a canoa de madeira.
Voc teria me buscado aqui, T.J.?
Por que no, doura?
Callie no tinha tanta certeza.
Cresci neste lugar  finalmente falou.  No queria viver aqui para sempre. Eu tinha medo, T.J.  Olhou para as crianas cavando a areia com colheres de cozinha.  Tinha medo de tudo. Das cobras, da escurido, dos becos sem sada. Depois de adultos, meus pais sempre viveram aqui. No pretendiam, mas viveram. Eu queria algo mais. T.J. enlaou-a pelos ombros.
	A fazenda no  muito diferente, Callie  afirmou com suavidade.  A casa  mais bonita, maior, mas lama  lama em qualquer lugar. Olhe, as crianas parecem felizes.
Callie sorriu.
	So felizes, sim. Vivem num mundo particular, cheio de fantasias e mistrios. Eu tambm fui uma criana feliz, T.J, S que cresci e passei a encarar a vida sob outra tica.
	 apenas um lugar, Callie. No  voc.
	A fazenda  voc.
	Sim, a fazenda sou eu. Mas no  Buck. Nem Hank.
Eles no quiseram viver l. Eu quis.
Callie pretendera mostrar-lhe o que fora sua vida. Tivera certeza que sabia.
Porm, de repente, sentia-se confusa, porque descobrira que suas lembranas estavam de pernas para o ar.
	Brinquei de Tarz bem ali.  Apontou para as rvores enormes.
	Por que no Jane?  Empurrou o chapu, expondo o rosto.
Fitaram-se por um longo momento. T.J. sorria com ternura. O sol queimava os ombros dela. A distncia, ouviu o riso das crianas. Callie no sabia se o som vinha do passado ou do presente. Sabia apenas que Thomas Jefferson Tyler estava a seu lado, na areia, seu sorriso enchendo seu mundo de alegria. Tocou-o na face. Aos dezessete anos, encontrara em T.J. convencimento e orgulho no lugar de ternura. Vira o rapaz e acreditara ter encontrado o homem.
	Oh, T.J.  murmurou com tristeza e mgoa.  Apenas um lugar, no?  Olhou ao redor pela ltima vez.  Vamos, querido.  Afagou a mo de Charlie, imaginando como seria a vida dele num barraco. Charlie tinha sorte. Ela tambm. A diferena era que ela batalhara para conquistar sua sorte.
Charlie tinha T.J.
Um dia, ele fora dela tambm.
Voltaram em silncio. De repente. T.J. perguntou:
Onde vivem seus irmos e irms?
	No sei. s vezes, mandavam cartas ou cartes. Ou pe didos de dinheiro. Porm, com o tempo, desapareceram. Sei que um vive nos pntanos da Gergia. Outro em algum ponto do oeste. Nunca mais nos reunimos, T.J.
	Acha que isso se deve ao lugar em que moravam?
	No. ela admitiu.  Na verdade, nunca fomos unidos. Pensei que fssemos. Mais uma vez, enganei-me.
Acredita que enganou-se em mais alguma coisa?  Correu o dedo pelo pescoo dela.
Sem perceber, Callie inclinou a cabea, respondendo ao toque como a flor ao sol. E, como o sol, seu toque, seu sorriso queimavam as tristezas dela.
Ela sorriu, a felicidade transparecendo como bales no ar.
	Que tal bifes para o jantar, cowboy?
T.J. endireitou-se no banco.
-r- Carne! Carne!  cantarolou.  Sou um homem de sangue vermelho. Quero carne vermelha.
	Carne vermelha! Ugh... Segure-se, vamos voar!  anunciou, pisando no acelerador.
Queria voltar para casa.
	Fala srio a respeito do bife? Juro como estou a ponto de cometer um crime por um bom pedao de carne. Gosto do seu macarro, doura. E maravilhoso, mas no combina muito bem com um cowboy. E, preciso fazer o possvel para manter uma imagem perfeita.  Soltou uma gargalhada.
	Percebi.  Callie ligou a seta esquerda ao se aproximar da entrada da fazenda.  Voc cuida muito bem da sua imagem, cowboy  provocou-o, tomando a estrada de terra.  Voc me deixa num constante estado de riso.
	Verdade?  Bateu de leve no joelho dela.  Gostaria de saber em que constante estado voc me deixa, doura?
	No estou nem um pouco interessada.  Empinou o nariz.
	Que pena! Callie, teria ido busc-la num barraco ou em qualquer outro lugar do mundo. Nunca ouvi comentrios maldosos ou brincadeiras a seu respeito. Talvez voc acredite que no comentavam diretamente comigo porque namorvamos, porm, acho que, mesmo assim, alguma coisa teria chegado aos meus ouvidos. Sei que no acredita em mim, mas pense a respeito, OK?
		Tentarei, prometo.
Na fazenda, Callie observou o modo como T.J. levava Charlie para dentro. E, mais uma vez, percebeu o amor absoluto e sem limites do pai pelo filho.
Diante da cena, perguntou-se da possibilidade de resgatar o passado.
Depois do jantar, Callie deu a mamadeira para Charlie sentada na varanda. T.J. ligou o rdio na sala de visitas e abriu a janela que dava para a varanda. O ritmo lento e doce dos blues os envolveu.
	No acha que Charlie parece meio inquieto?  Callie tocou a fronte do beb com os lbios. A temperatura parecia normal.
	Parece. Chequei o nvel de acar, a urina. Est tudo bem. Talvez sejam os dentes.  O tom de voz era calmo, mas Callie percebeu as linhas ao redor da boca mais acentuadas.
 S espero no precisar lev-lo para o hospital.
Callie aconchegou Charlie contra o peito.
	Oh, querido, papai e eu no permitiremos que nada lhe acontea.  Corou quando sentiu a mo de T.J. em seu pescoo.
O som vibrante de um saxofone quebrava o silncio da noite.
T.J. colocou Charlie no bero, enquanto Callie limpava a cozinha. Naturalmente, como num acordo ttico, estabeleceram; uma rotina de tarefas que cumpriam sem reclamaes.
Descala, Callie voltou para a varanda. Movimentava o corpo lentamente, conduzida pelo perfume da noite e pelos sons mu-s sicais. A saia flutuava, seguindo os passos dela. Parou ao ver | T.J. na porta.
Inconscientemente, ouvira os passos de T.J. Quando o viu encostado na porta da cozinha, a primeira reao foi correr para os braos dele.
Dissera que James merecia uma mulher que corresse para a porta quando ouvisse os passos dele.
	T.J., quero danar. Ainda sabe danar, cowboy? Ou seus joelhos enferrujaram?
	Mulher maravilha!
	Essa estao  muito boa, T.J. Gostei.
Ele sentou-se no banco e tirou as botas.
	H muito tempo no dano, Callie.
	Nem eu. Quero acabar este dia danando. Quero ouvir a msica, sentir o vento no rosto e...  Abriu os braos. T.J. se aproximou.
	O que mais, doura?
	Quero fingir que tenho dezessete anos outra vez. Por alguns minutos  murmurou. A verdade comeava a aflorar.
	Ento, dancemos, Callie.  Enlaou-a pela cintura.
Callie encostou a cabea no peito dele, acompanhando seus movimentos.
	Como descobriu essa estao?
	Costumava passar a noite ouvindo rdio.
Visualizou-o no quarto de Charlie, com o rdio ligado.
	No conseguia dormir?
T.J. no precisava dizer mais nada.
Movimentando-se em perfeita sincronia com ele, no foi difcil Callie esquecer o presente para transformar-se novamente na garota de dezessete anos.
O perfume do vero pairava no ar. Calor, poeira, ondas quentes quebrando na praia e sorvete gelado na boca. Gosto de sorvete e de T.J. se misturando. Frio e quente. Mais doce do que qualquer outra coisa no mundo.
No tinha ideia do tempo que danaram. A msica no parava. Nem T.J. Ele a abraava forte. Os corpos colados. Inclinaram-se lentamente, at a cabea de Callie tocar o piso da varanda. A saia enroscava-se nas pernas de ambos, prendendo-os com a mesma fora do passado, fora essa que perdurava at o presente.
Levantaram-se para carem ainda abraados na espreguiadeira.
	Doura, voc tem ideia do que est fazendo comigo?
	No. Diga-me.
Segurando-lhe a mo, pousou-a sobre o corao.
	Sente?  ele murmurou.
Ela sentiu as batidas descompassadas do corao dele. 	E o que acontece comigo sempre que a vejo, que a toco.
 Fitou-a com intensidade.  Estou faminto, Callie. Por voc. Por ningum mais. S por voc. Sempre.  Inclinou-se na cadeira. Callie ajeitou-se no colo dele, com as pernas em "V".
T.J. beijou-a nos lbios, no pescoo, enquanto abria os botes da blusa.
Callie puxou a camiseta dele para fora dos jeans, erguendo-a at a altura do pescoo. Acariciou a pele macia antes de prov-la com a ponta da lngua. As batidas de seu corao acompanhavam o ritmo acelerado do corao de T.J. De repente, lembrou-se de quando comeou a sensao de vazio. Afastou-se.
	O que houve, doura?
	No podemos reviver o passado, T.J. J cometemos o mesmo erro antes.
	Nunca pensei que era um erro, Callie.  Arrumou a camiseta para dentro dos jeans. Acha que foi errado fazermos amor?  Segurou-a pelos pulsos.  Por que considera um erro o ato de amor?
	Eu era uma criana, T.J...
	Ento, voc deveria ter falado. No tente me convencer de que no sabia o que estava fazendo, Callie! Porque no acreditarei. Nem em um milho de anos. Seria uma injustia alegar que a seduzi, doura.  Sacudiu os braos dela.  Porque ambos sabemos que no  verdade. Certo?
	Voc no me seduziu.  Tentou desvencilhar-se. T.J. no a soltava.
	Ento, por que fugiu, Callie?
	Porque no sobreviveria com voc.
	O qu?
	Voc era forte, poderoso em todos os sentidos. Eu no era nada. Apenas uma garota do outro lado da cidade. Eu no sabia quem era e achei que se voc me assumisse, perderia a mim mesma. Desapareceria dentro de toda sua fora, at ficar reduzida a uma sombra gravitando em seu redor. Eu tinha sonhos, T.J., e temia no poder realiz-los. Temia que meus anseios fossem anulados pela sua personalidade. No passava de uma criana e no confiava em mim...
T.J. a interrompeu. A voz rspida controlava a raiva.
	Voc no confiou em mim, em ns, Callie.  Afastando-a, levantou-se bruscamente.
Confusa, Callie tentava abotoar a blusa. No conseguia raciocinar. O crebro no acompanhava a rapidez com que as palavras afloraram.
	No queria ser como as pessoas da minha famlia. Aos dezoito anos sem outra perspectiva de vida, exceto engravidar e casar...
Callie o fitou desfigurada. As palavras impensadas martelavam sua mente de modo inexorvel..
	Conte-me  ele pediu. O medo estampado nos olhos dele.
O julgamento longamente adiado.  Conte-me.
Ento, ela contou. Contou-lhe sobre a mulher-menina aterrorizada ao descobrir-se grvida.
	No escrevi nem uma linha porque temia que...
	Temia o qu? Que a matasse? No me enlouquea, Callie. Apesar de jovem, sabia que jamais seria violento com voc. O que a apavorava tanto?
	Queria estudar. Queria ser alguma coisa na vida! Queria que minha vida fosse diferente da dos meus pais, dos meus avs. Diferente de todas as pessoas que conhecia. Queria alguma coisa mais...
	Eu no era suficiente, Callie? O que construiramos juntos no seria suficiente?
	No! J lhe disse, jamais acreditei que poderia vencer dependendo de algum. E continuo no acreditando. Uma mulher  capaz de manter-se sozinha. Capaz de sustentar a si mesma. J sabia disso aos dezessete anos. Amar algum no significa que essa pessoa seja responsvel pela nossa felicidade, responsvel pelos objetivos de nossa vida.  Levantou-se e o encarou.  Casamento  uma sociedade, T.J. Precisa de dois adultos  concluiu, esperando pela pergunta ainda no formulada.
Aps um silncio longo e constrangedor, ele falou.
	Poderamos ter discutido estes problemas. Juntos.
	Crianas no devem se casar, T.J.
Pelo olhar dele, Callie compreendeu que T.J. concordava com essa afirmao, embora jamais admitisse que o casamento teria sido um erro.
	O beb?  Ele a olhava fixamente, atento s reaes dela.
Callie, desolada, movimentava a cabea, esfregava as mos. A velha ferida doendo como nunca. O momento chegara. Seu beb. O beb deles. Perdido, nunca conhecido, nunca amado.
	Ela... Eu a entreguei para adoo. Dei-lhe uma chance. Mais tarde, procurei-a. S para saber se era feliz. No pretendia interferir na vida dela. No tinha mais o direito. Descobri que As lgrimas escorriam morrera com dois meses de idade, pelo rosto plido.
T.J. apoiou-se na parede. Mal podia parar em p. Escorregando, sentou-se no cho.
	Sabe o que machuca mais?
Muda, Callie limitou-se a negar com um movimento de cabea.
	Voc no confiou em mim. Disse que no confiava em voc, mas era em mim que no confiava, Callie. Em mim Eu teria enfrentado um exrcito por voc. E por nosso filho. Por ns.
	Ento, por que no me procurou?
	Claro que procurei! S que no a encontrei. Sempre esperei que voltasse. Mas voc no voltou. Isto , voltou agora. Preferia que no tivesse voltado, Callie.
Uma bofetada no rosto no teria dodo mais. Esperava tudo. Raiva, dio, ressentimento. As palavras machucaram, bateram fundo na alma, envenenando-a.
	Eu o amei  murmurou.  Naquela poca. Hoje.
T.J. movimentou a cabea negando.
	No.
	Voc queria filhos. Sempre afirmou isso. Nunca mais terei filhos.  Custara, mas conseguira revelar o ltimo segredo. Com passos firmes, passou por ele, abriu a porta e atravessou o hall direto para o quarto de Charlie.
Permaneceu ao lado do bero, chorando em silncio, at sentir-se com foras para trancar-se no seu quarto.
Uma vez no quarto, no acendeu a luz, no trocou de roupa. Deitou-se com o olhos abertos, fixos no teto, incapaz de pensar.
Na varanda, T.J. desmoronara. O corpo doa. Os olhos ardiam. Dor. Raiva. No sabia como lidar com aquele sentimento de perda to profundo. Levantou-se, mas no se moveu. As pernas no obedeciam aos comandos do crebro.
A msica suave soava na varanda.
Durante a conversa com Callie, no ouvira nada, exceto . palavras dela. Palavras que o feriram como facas, dilacerando a cada nova revelao.
Ouviu o relinchar de um cavalo, o ronco do motor de um avio. Cambaleando, arrastou-se pela casa, at chegar no quarto de Charlie.
Na porta, parou para tomar flego. Ofegava como se tivesse caminhado quilmetros. Quando a respirao normalizou, aproximou-se do bero de Charlie. Olhou-o dormindo tranquilamente.
Seu filho.
Ele e Callie haviam tido uma filha. Uma menina frgil que vivera apenas dois meses. Callie a vira por algumas horas. Ele jamais a vira. Nem veria. Sequer tinha o consolo de saber que vivia em algum lugar do mundo. Vivendo e amando. Uma garota de quatorze anos, espevitada como Callie fora. Travessa como ele fora. Dois meses de idade. Partira. E ele nem a conhecera.
Acariciando a cabea de Charlie, T.J. traou a linha quase invisvel das sobrancelhas dele. Sobrancelhas iguais s de Suzy, que era loira. Contornou a boca do beb. Como a dele. Ou de Buck. O nariz poderia ser igual ao de qualquer um. Mas a obstinada independncia... era prpria de Charlie. Unicamente dele.
Uma menina.
Teria sido amada e mimada pelos pais adotivos. Tentou imaginar o homem e a mulher que amaram sua filha, que sofreram por perd-la. Sofreram no lugar dele. Porm, ao lado do bero do filho, sofria pela menina que nunca vira. Ele a teria amado.
T.J. trouxe a cadeira de balano para perto do bero e sentou-se. Com o rosto apoiado nas grades do bero, viu a noite mudar lentamente, silenciosamente, at transformar-se na madrugada de um dia que ele no estava preparado para encarar.
Altas horas da noite, levantara-se para pegar a mamadeira de Charlie na cozinha. Callie estava l, esquentando o leite em banho-maria. Depois de pingar algumas gotas de leite no pulso para testar a temperatura, entregara a mamadeira para T.J.
Ele queria dizer alguma coisa. Dizer que entendia. Mas no entendia. Ela teria acreditado. Ele lhe confiara o filho. Callie fugira quando deveria ter dividido o fardo. Afirmara que no passava de uma menina assustada.
Olhando para o rosto plido, notou as linhas ao redor da boca, a face marcada pelas lgrimas. Viu somente a mulher.  Uma mulher que o trara ao negar-lhe sua confiana. Pegou a mamadeira de Charlie e pingou gotas de leite no prprio pulso. Callie gemeu debilmente.
Sem uma palavra, T.J. voltou para o quarto de Charlie.

CAPITULO IX

Na manh seguinte, Callie acordou com enxaqueca. Dor de cabea, olhos pesados, nsia de
vmito. Pulou da cama, vestiu a primeira roupa que pegou e correu para a cozinha. No havia sinais de que T.J. e Charlie haviam comido. A casa estava no mais absoluto silncio. Entorpecida pelo cansao e pela dor, andava sem rumo pela cozinha. Por trs vezes abriu e fechou a porta do refrigerador antes de lembrar do que precisava. Leite. Margarina. Gelia.
Obrigando o crebro a funcionar, recitava em voz alta a rotina de Charlie, para no cometer nenhum erro.
Movimentando-se entre o fogo e a geladeira, parecia alheia a tudo que a rodeava. Gostou do entorpecimento que reprimia suas reaes.
A nvoa que a envolvia no duraria muito. Dormira mal. Acordara e adormecera vrias vezes confusa, delirando, as cenas se desenrolando incessantemente, at atingirem os limites entre o sonho e a realidade.
Lembrava-se que, de madrugada, parara na porta do quarto de Charlie. No entrara. Com certeza T.J. no a queria perto do filho. Nunca esperara que T.J. agisse com tanta crueldade como no momento em que testara pessoalmente a temperatura do leite de Charlie.
A panela onde esquentara a mamadeira ainda estava no fogo. Colocou-a na lavadora.
Graas ao torpor que a envolvia, as lembranas da noite anterior no eram muito claras. Lembrava-se que danara com T.J. e que quase haviam feito amor.
Quase. Felizmente recobrara a conscincia a tempo. No queria carinho ou paixo interferindo em sua determinao de cuidar de Charlie, para depois desaparecer para sempre da vida dele. Da vida de T.J. E ento, finalmente, poderia colocar uma pedra sobre o passado.
Pressionou o boto da lavadora. Depois de um estalido, a mquina parou de trabalhar. Preocupada, Callie olhou para o interior da mquina. Entre as reparties, encontrou um dinossauro de plstico vermelho. Charlie.
Retirou o brinquedo, lavou-o e o colocou no cadeiro do beb. Reparou nas marcas de dentes.  Oh, Charlie  murmurou.
Charlie conquistara seu corao com cada sorriso, com cada resmungo. No suportaria aquele situao por muito tempo. E T.J.? Acreditara estar imune aos seus encantos. No estava. Jamais estivera. Seu corpo respondera aos apelos dele. No tinha como negar. Impossvel controlar seus impulsos. Impossvel resistir aos carinhos, ao sorriso dele.
T.J. estava errado. Era muito mais fcil no amar. Mais confortvel.
Desorientada, parou entre a pia e a mesa. James era confortvel. Mandara-o embora.
Cumpriria sua promessa. Ficaria at T.J. contratar uma nova governanta. Depois, levaria sua dor e sua alma para longe de Tarpon City, Charlie e Thomas Jefferson Tyler.
Gostaria de continuar entorpecida pelo mximo de tempo possvel.
Colocou pedaos de bacon na frigideira. A gordura espirrou, queimando seu pulso, mas ela s percebeu as bolhas quando ligou a cafeteira. Encarou-as como um smbolo das velhas feridas.
Assim que o bacon e o caf ficaram prontos, saiu para procurar por T.J. e Charlie.
Encontrou-os no quarto de Charlie.
Esparramado na cadeira de balano, T.J. dormia com o filho sobre seu estmago. Segurava o lenol que cobria o corpo do beb. A claridade que entrava pela veneziana iluminava seu rosto, acentuando as olheiras. Quando acordado e rindo, parecia forte demais para se deixar abater pela fadiga. Dormindo e to vulnervel quanto o filho, T.J. demonstrava as marcas das agruras que enfrentava.
Abriu os olhos.
	Ainda aqui?  A voz soou sonolenta e enrouquecida.
O torpor evaporou-se instantaneamente.
Somente o orgulho e a perplexidade a mantiveram em p. Nada mais.
	O caf est na mesa. Quer que eu troque Charlie e lhe d a mamadeira?
	No. Eu cuido dele.
Levantou-se. No trocara de roupa. Fitou-a em silncio. Callie baixou a cabea, incapaz de sustentar o indisfarvel olhar de condenao.
Como queira.  Saiu do quarto.
Sua culpa. Ela transformara o homem risonho, bem-humo-rado, charmoso num homem de taciturno com olhos de pedra. A realidade era mil vezes pior do que os pesadelos que agitaram sua noite maldormida.
Pela primeira vez desde que Callie chegara, Charlie estava irritado. Espalhou mingau em todas as direes, no comeu, nem se interessou pelos brinquedos.
Olhava para T.J. ou Callie e chorava. Atormentada pelas prprias emoes, igual a Charlie, no conseguia encontrar conforto.
T.J. mostrava-se distante e calado.
No mais os comentrios bem-humorados que faziam o sangue dela ferver feito bolhas de champanhe. O brilho dos olhos se apagara. Comportava-se como um estranho. Indiferente e terrivelmente formal.
Mesmo assim...
Sua pele se conscientizava da presena dele, em qualquer ponto da cozinha que estivesse. Sentiu um arrepio na nuca, quando ele passou s suas costas para abrir a porta da geladeira. O ar parecia faltar apenas pelo fato de T.J. estar se movendo no mesmo espao que ela.
Enquanto T.J. e Callie se ocupavam em evitarem-se, Charlie derrubou um copo de suco de ma.
O que houve, garoto? Parece que seu dia no est dos melhores, hein?
Callie apressou-se em limpar o cho. Viu T.J. tocar na fronte do filho.
	Um pouco quente, companheiro? No? Apenas cansado da rotina diria?  Acariciou o pescoo de Charlie, acalmando-o.
	Ele est com dentes novos  Callie falou com a cabea baixa. Porm, com o canto do olho, viu-o franzir as sobrancelhas. Seu corao disparou.  Apontaram ontem.
Charlie parou de choramingar.
	Ah-bah  resmungou.
Callie afastou a cadeira e levantou-se. De repente, uma tontura. Cambaleou. Se T.J. no a segurasse, teria cado.
	Tudo bem?
A fora da mo dele em seu brao abalou ainda mais seu equilbrio emocional.
	Sim.  Apoiou-se na pia, sentindo-se doente e infeliz.
Ansiava por algo que jamais teria. No tinha o direito de lamentar-se. Escolhera seu caminho. Agora, pagava pelo preo de sua escolha.
Uma mulher inteligente no perdia tempo questionando suas decises. Uma mulher inteligente deveria lutar pelos seus ideais sem se preocupar em perguntar-se se deveria ou no ter agido diferentemente.
Porm, vendo o cuidado de T.J. para com Charlie, duvidou que fosse uma mulher to inteligente quanto julgara.
A expresso de T.J. era impenetrvel ao perguntar:
	Voc vai embora hoje?  Sem esperar pela resposta, continuou:  Acho melhor levar Charlie para a casa de Rena, que conhece bem sua rotina.  Com o filho nos braos, atravessou o hall. O som de seus passos ecoava no piso de azulejos.
No havia espao para entendimento. Muito menos para o perdo.
Callie tremeu. T.J. deixava muito claro que no confiava mais nela para cuidar de Charlie. Preferia levar o filho para a ilha, voltar  fazenda para, ao entardecer, buscar o beb na cidade, s para no deix-lo com Callie.
No contestou a deciso dele. Talvez fosse melhor para sua tranquilidade e paz de esprito se T.J. deixasse Charlie com Rena.
Entretanto, ambos voltariam  noite exaustos. O beb irritado. Sem comida na mesa. Sem provises na geladeira.
No entregaria os pontos com facilidade. T.J. teria que dizer-lhe, frente a frente, que no confiava nela. Que no a perdoava.
Nada de situaes mal resolvidas. Nada de rodeios.
Quatorze anos antes, no tivera coragem de falar abertamente. Conscientizava-se que, desta vez, tinha por obrigao discutir o assunto. Seu silncio fora o maior de todos os erros que cometera. No queria mais esconder-se atrs de mscaras.
Abriu a boca para cham-lo.Melhor para sua tranquilidade e paz de esprito esquecer o assunto, arrumar suas malas, entrar no carro e desaparecer estrada afora. Exatamente o que deveria fazer. Apesar disso, ouviu sua voz soando at meio estridente.
	Espere!
Ele parou. Apoiando o queixo no ombro do pai, Charlie a olhou sorrindo. T.J., porm, no se voltou.
	Sim?
Com esforo, quase se arrastando, Callie venceu a curta distncia que os separavam. Parou alguns passos atrs dele.
	Se no confiar mais em mim para cuidar de Charlie, por favor, me diga, T.J. Se est me punindo ou se vingando, fale tambm. O que quer que seja, fale. Fale lenta e claramente para que no haja dvidas quanto  sua inteno. De qualquer modo, quero que saiba que gostaria de cuidar de Charlie. Como prometi.
Charlie estava com trs dedos na boca. Estendeu a mo livre para ela. Callie desejou segur-lo, apert-lo contra o peito, embal-lo carinhosamente at que aquilo que perturbava seu mundo infantil desaparecesse.
Mas no tinha esse direito. Ansiosa, esperava pela deciso de T.J., sabendo que, independente do que resolvesse, ambos haviam chegado ao limite.
Callie ouviu o assovio de um ajudante que trabalhava no pasto. Da cozinha, vinha o som da gua pingando da torneira. Um rudo montono e compassado, como se marcasse o tempo.
	O mais provvel  que Charlie esteja sofrendo reaes devido ao nascimento dos dentes. Qualquer problema, chame-me no telefone celular. Ou, ento, ligue para o dr. Rothman.
 Ainda de costas para ela, acrescentou:  No a estou punindo, Callie.
	Pensei que estivesse.
Ele ergueu os ombros.
	Todavia, no estou conseguindo lidar com tudo o que me contou. Ainda no. Preciso de tempo para coordenar meus pensamentos. No sei o que pensar. Sobre tudo.  Suspirou.     Independente do meu estado de esprito, quero que cuide de Charlie. Quanto a isso, no tenho a menor dvida.  Calou-se por um instante.  Se ainda quiser cuidar dele.
 Claro que cuidarei. Deixe-me ficar com ele, T.J.  Acariciou as faces do beb e, nesse movimento, a mo de Callie roou no ombro de T.J.
Ele se encolheu, como se tivesse sido queimado. Afastou-se em silncio.
Ela no confiara nele, mas T.J. lhe confiava seu filho. Depois da reao da noite anterior, quando T.J. testara a temperatura do leite, Callie no sabia como interpretar as atitudes dele. No sabia o que decidiria com relao ao filho ou  permanncia dela na fazenda. Mas perguntara. Porque precisava saber.
Vingana? Punio? Ambos? T.J. lhe respondera.
Queria que ela continuasse em sua casa. Com seu filho, com ele. Callie juraria que era porque as reaes e as emoes dele eram to complicadas quanto as suas. 
Durante os trs dias seguintes, como num sonho, Callie cumpria suas tarefas de cuidar de Charlie, da casa e das refeies. Dentro de uma casa diferente daquela que conhecera na adolescncia, casa reformada para agradar ao gosto de uma mulher que nunca vira, Callie comeava a sentir-se uma estranha para si mesma, como se vivesse a vida de outra pessoa. Tinha a impresso de seguir os passos de uma mulher irreal que se movimentava  sua frente, guiando-a naquele mundo, de repente, desconhecido. s vezes, Callie se sentia um fantoche, manipulada por uma mo invisvel.
Imaginava que o esprito de Suzy lhe fazia companhia, mas nunca teve certeza. Acreditava que, se pudesse ver o rosto daquele ser imaginrio que vivia nos limites de sua conscincia, ento seria capaz de entender tudo.
Consertou o exaustor do banheiro, lubrificou as ferragens do porto e telefonou ao dr. Rothman pois a indisposio de Charlie no cedia, apesar do testes de sangue e urina acusarem resultado normal. Sossegada com as instrues do mdico, brincou, cantou, leu histrias, tudo numa tentativa de distra-lo e confort-lo.
Charlie acabava dormindo aconchegado a ela. Emocionada, Callie sofria por antecipao, pensando no momento da despedida.
T.J. no jantava antes das dez horas. Callie o esperava na varanda iluminada.
Limitavam-se a conversar sobre os acontecimentos do dia. Callie falava de Charlie e T.J. informava em que parte da fazenda estaria trabalhando no dia seguinte, caso precisasse localiz-lo.
Durante o jantar, Callie percebia que a observava o tempo todo. Entretanto, se virava o rosto para ele, nunca o surpreendia. Sentia seu olhar avaliando cada gesto, cada reao. Fazia com que Callie se conscientizasse do prprio corpo, da pele, dos movimentos. Sentia-se nervosa, insegura, obrigando-se a ser extremamente cautelosa na presena dele.
Tal situao no poderia continuar.
Era explosiva demais.
Procurava manter-se ocupada. Limpava a casa, cuidava da roupa, do jardim. Quando o mecnico veio consertar a mquina de lavar roupas, sem pensar, pagou-o com um cheque seu.
Quando T.J. soube, sentou-se  mesa da cozinha, preencheu um cheque entregando-o a Callie.
	Posso pagar minhas contas. No sou rico, mas posso perfeitamente manter a casa, Charlie e a mim. Ou est saldando uma prestao do dbito ao qual se referiu? Se estiver, obrigado, mas dispenso. No preciso do seu dinheiro.  Os lbios se contraram e o olhar refletia emoes que Callie no conseguiu identificar.
Controlando a raiva, ela explicou:
	A mquina estava quebrada. Havia muitas fraldas e lenis para lavar. Ento, no vi mal algum em chamar o mecnico e pagar pelo servio. Afinal, voc no estava em casa.  A garota de dezessete anos jamais teria tomado essa iniciativa. A mulher na qual se tornara no esperava diante das prioridades.
T.J. desviou o olhar, antes de comentar.
	Muita gentileza sua. Obrigado.
Uma noite, Callie descascava pepinos na pia, quando ouviu os passos de T.J. na varanda. Chovia e, pela janela, viu-o atravessar a varanda direto para a despensa. Ouviu o ranger da cadeira no momento em que sentou-se.
Em silncio, Callie se aproximou da porta entre a cozinha e a despensa. Parou fora do alcance da vista de T.J. Viu-o, num gesto de desnimo e cansao, inclinar-se, apoiando- a cabea nos braos cruzados sobre os joelhos.
As botas estavam cobertas de lama. A roupa mida e suja. Callie entrou na despensa e o tocou. Ele ergueu a cabea. O rosto marcado pelas linhas e olheiras profundas.
 Vinte vacas esto doentes. O veterinrio acredita que comeram erva daninha fora do pasto. Um cavalo caiu num buraco, quebrou a perna e precisamos sacrific-lo. Muita tragdia para um s dia.  Fechando os olhos, encostou na parede. Callie no disse nada. Aproximou-se e, de joelhos, tirou-lhe as botas e as meias tambm midas. T.J. gemeu. Por um instante, ela se retraiu. T.J. abriu os olhos e a fitou. Pela primeira vez desde a noite das revelaes, sua expresso era franca, indefesa, sem a menor sombra de ressentimento.
Ningum jamais a olhara assim, com um olhar faminto, eloquente. Uma onda de calor abrasou seu corpo.
T.J. segurou uma mecha dos cabelos de Callie, que tremeu desejando pousar o rosto na palma da mo dele e encontrar a compreenso que aquele toque prometia. A sombra dele se projetava sobre ela, encobrindo suas feies. Perguntou-se se T.J. percebera o detalhe.
Tremendo, compreendeu que a mulher que a rodeara como um espectro durante os ltimos dias, no era outra seno a adolescente de dezessete anos que riscara de sua vida, trancando-a num passado que preferira ignorar, mas que precisava, no presente, fundir-se com a mulher bem-sucedida em que havia se transformado, para que surgisse uma nica mulher verdadeiramente livre, tranquila e sem remorsos. A garota voltara para mostrar-lhe, num momento, a ligao passado-presente.
Sem qualquer vislumbre do futuro.
E, naquela viso que a garota lhe proporcionava, como nunca acontecera antes, visualizou-se em casa, como parte da vida de T.J., em condies de igualdade.
Levantou-se para deixar as botas na sapateira ao lado da porta.
	O jantar est no microondas.  Trmula, recuou alguns passos, perturbada com o olhar intenso de T.J.
	Voc est tremendo.  O tom de voz confirmou o desnimo que o abatia. Segurando o trinco da porta, ergueu-se com dificuldade.  O que aconteceu, Callie? Algo errado?
No a tocou. Porm, sob as olheiras profundas, os olhos se estreitaram.
	Nada.  Ainda tremia, prisioneira do olhar insistente e perscrutador.  Algum caminhando na minha sepultura.  Tentou brincar.  A chuva. No sei.
O desejo brilhava nos olhos acinzentados. O desejo que escondera durante todos aqueles dias. Um sentimento de dor a invadiu. Por ela. Por ele. Pela necessidade fsica recproca que os dominava. Necessidade que comeara quando ainda eram jovens demais para avaliar seu potencial.
Oh, ela avaliara o potencial. E fugira. Ela fugira. No o potencial.
Por isso, no conseguira casar-se com James, aceitando o conforto e a segurana que lhe oferecia. James oferecera amizade, mas j era muito tarde. T.J. chegara antes.
O rosto de T.J. era a prpria imagem do cansao e do desejo. Um desejo que ela no poderia satisfazer. Mesmo assim, suas pulsaes se aceleraram. Sem toc-la, sem uma palavra sequer, apenas com sua presena, ele despertava todos os sentidos de Callie. O corpo respondia, o pulso descontrolava, o sangue fervia. O calor entre ambos crescia. E, ela queria, desejava.
Este homem a marcara a ferro e fogo. Ela lhe pertencia. Seu corpo sempre responderia aos apelos dele.
Somente dele.
Finalmente, Callie o enxergou tambm como o homem que era, como o jovem que fora. Forte. Vulnervel. Sob o charme e a alegria, a vulnerabilidade que ela no fora capaz de aceitar ou ver h quatorze anos.
	Venha jantar. Voc est exausto. Voltou para a cozinha.
T.J. a seguiu.
	Vou tomar um banho rpido  avisou-a.
Antes, porm, foi at o quarto de Charlie, que dormia tranquilamente.
Minutos depois, com roupas limpas e os cabelos midos penteados para trs, T.J. sentou-se para jantar. Como de costume, Callie relatou-lhe como Charlie passara o dia.
	Recusou a sopa, mas comeu o mingau e tomou a mamadeira. Liguei novamente para o dr. Rothman e ele disse que no h razo para nos preocuparmos.
	Otimo.
Callie suspirou. Precisara daqueles anos de separao para descobrir a prpria fora. Como T.J. afirmara, aquela fora sempre estivera dentro dela. Mas nunca percebera. Talvez, pelo fato de, naquela poca, viver  sombra de T.J. Precisara atingir a maturidade para descobrir a vulnerabilidade dele.
O que teria acontecido se tivessem se conhecido depois de adultos?
Sentindo uma imensa ternura pelo homem que comia em silncio  sua frente, Callie no teve dvidas que, sem os fantasmas do passado para separ-los, seriam amantes.
E amigos.
Sob o ar irresponsvel e brincalho, T.J. sempre fora um grande amigo. Callie tambm no notara.
	Obrigado. Com licena  T.J. disse com formalidade, levantando-se.
	A vontade  ela respondeu no mesmo tom.
T.J. foi direto para o quarto, de onde no saiu mais. Callie limpou a cozinha. Entrou no quarto de Charlie para certificar-se de que o beb estava bem. Depois, vagou pela casa  procura de algo que no saberia definir.
A casa estava repleta de lembranas dos Tyler. No banheiro, os potes com sabonetes coloridos e bolas de algodo falavam claramente da mulher que vivera naquela casa. A me de Charlie.
Tocou as paredes da sala de visitas. Correu os dedos pela mesa da sala de jantar, um presente do pai para a me de T.J. Todos os cantos, todos os objetos da casa falavam de estabilidade, de amor.
Sem sono, sentou-se na varanda. Ainda chovia. Os galhos frondosos do carvalho no passavam de vultos na escurido. Braos abertos protegendo a casa e o quintal.
Tambm o amor de T.J. protegia Charlie. Os braos do pai transmitindo foras para o filho, envolvendo-o num crculo de amor.
Voltando para casa, ouviu um ruido vindo do bero de Charlie. Correu para o quarto e acendeu a luz. O beb estava plido e suava. Aproximando-se mais, notou as pupilas dilatadas.
	Oh, querido, cuidarei de voc. No se preocupe. Ficar bem num instante  murmurou, apressando-se em pegar o tubo de glicose.  Meu amor, no permitirei que nada lhe acontea.
No teve tempo de entrar em pnico. Nem para acordar T.J. Charlie estava em crise. Precisava dela.
Por mais que tentasse, no conseguia fazer com que o beb abrisse a boca para poder introduzir o gel. Com movimentos rpidos e sempre conversando com Charlie, aplicou-lhe uma soluo de cinco miligramas de glicose lquida. Com Charlie nos braos atravessou o hall em direo  cozinha.
	Sabe o que faremos agora, querido? Falaremos com os mdicos de planto. No precisaremos deles, mas os manteremos de sobreaviso.  Rezava para no estar enganada. No queria pensar na ideia de Charlie no hospital.  Mais dez ou quinze minutos e voc estar bom, no ?  Pressionou o nmero j programado do hospital.
Depois de falar com o hospital, decidiu colocar uma mamadeira para esquentar em banho-maria.
	Muito bem, querido. Vamos sentar e esperar que seu corpinho tome as providncias necessrias, OK?
Passando pelo quarto de T.J. bateu na porta.
	T.J., acorde. Charlie est tendo uma reao  insulina. J alertei os plantonistas do hospital. T.J.?  Chamou-o.
T.J. abriu a porta ainda vestindo a cala.
	Charlie?
	Calma, T.J. Logo ele estar bem.  Tratava-o como a uma criana.  Apliquei-lhe uma dose de glicose. Como voc e o dr. Rothman me instruram. Vou balan-lo na cadeira de balano, enquanto esperamos pelo resultado.
T.J. a seguiu at o quarto de Charlie. Callie colocou o beb na cadeira, iniciando um movimento cadenciado. T.J. sentou-se no cho, ao lado da cadeira. Callie cantou, contou histrias, enfim, repetiu todas as artimanhas para distrair a criana.
Aproveitando o momento oportuno, ela friccionou a glicose em gel nas gengivas e na boca de Charlie.
E esperou. Foram os quinze minutos mais longos de sua vida.
Quando os sintomas desapareceram, descartando a necessidade de lev-lo ao hospital, Callie no conteve as lgrimas. O telefone tocou. T.J. correu para atend-lo.
	No. Cancele. A glicose funcionou.
	Oh, querido.  Callie acariciou a cabea do beb. Voc  um rapaz corajoso. O mais corajoso.  Deu-lhe a mamadeira e observou os olhinhos alertas e curiosos, apesar do cansao.  Oh, meu garoto, voc me assustou, sabe? Nem imagina como fiquei apavorada. Por favor... por favor, nunca mais faa isso comigo, entendeu?
Mas, ele faria. Era prprio da doena. Teria crises. Fases. Ele saberia como lidar. T.J. tambm. Callie enxugou as lgrimas com as mangas da blusa, sentindo o corao despedaado.  Oh, Chariie, eu te amo. No queria. Tentei no am-lo. Tentei.
Chariie adormeceu.
Quando T.J. voltou ao quarto, trazia um copo com gua gelada. Vendo Chariie adormecido nos braos dela, apagou a luz e colocou o copo na cmoda.
Inclinou-se para pegar Chariie.
Os braos de Callie se fecharam ao redor do corpo do beb, impedindo que T.J. o pegasse.
Confuso, fitou-a.
	Callie?
Chariie era seu filho, no dela.
As palavras no ditas pairavam entre eles.
	Pegue-o  Callie murmurou amedrontada. Entregou o garoto para o pai.
Levantou-se. Cambaleando, caminhou at a porta. Precisava sair. Agira como uma tola. Brincara de casinha na vida de outra pessoa. E fora estpida, descuidada, infantil, por permitir-se esquecer que tudo no passava de faz-de-conta

CAPITULO X

T.J. notara as faces plidas de Callie. Com o corpo curvado, as mos apertadas contra o corpo, ela corria em direo ao hall.
 Callie, espere!  chamou-a, mas ela no se voltou. No poderia segui-la antes de colocar Chariie no bero. Considerava imprescindvel que depois de uma crise, mesmo dormindo, o filho sentisse a presena pai.
Sentou-se na cadeira de balano com Chariie nos braos. Fechando os olhos, permitiu que os acontecimentos dos ltimos trs dias desfilassem em sua mente, como cenas de um filme.
Somente trs dias. De repente, os trs dias pareciam anos. O impacto causado pelas revelaes de Callie o haviam derrubado num buraco to profundo que chegava a duvidar que, um dia, voltaria ao topo.
Como um rob, trabalhara na fazenda, cumprira suas tarefas, sentindo-se vivo apenas ao lado de Charlie.
Mesmo assim...
Flexionando os joelhos, impulsionou a cadeira para frente e para trs. As sombras da noite invadiam o quarto, refletin-do-se na parede.
Mesmo assim...
Controlando a raiva, convivendo com a mgoa, mantinha-se atento a todos os movimentos e reaes de Callie. De to furioso, chutara um tronco no estbulo, danificando a cerca que levara um dia para instalar. Furioso e frustrado, porque no havia nada para fazer a fim de mudar o rumo dos acontecimentos.
Comera as refeies que Callie preparava. Poderia muito bem ter mastigado papel amassado. Fechara-se. Recusara-se a exigir explicaes.
Simplesmente trancara todas as portas de seus sentimentos, alimentando sua raiva, sua mgoa, revertendo-as contra Callie.
At o momento em que dissera que ele a estava punindo.
Precisara reconsiderar as perguntas de Callie. Porque uma parte da fria o consumia, exigindo que Callie sofresse tanto quanto ele. A outra parte desejava puni-la por t-lo deixado fora da vida de sua filha.
Mesmo assim...
Quando admitiu que Callie tambm sofria a mesma agonia, que h muito tempo vivia atormentada, a raiva e a frustrao diminuam a cada momento que passava ao lado dela. No suportava o tom angustiado de sua voz. As marcas no rosto de Callie traam suas emoes. Em princpio, T.J. preferia ignor-las mas, depois, sensibilizava-se. Sua dor. Dela tambm. Por fim, no conseguia mais distinguir a diferena. Uma vez que o sentimento de raiva fora extirpado, tudo o que sabia era que sofria por ele, por ela. Por ambos.
A mgoa no se extirpara.
Ao contrrio, aumentava a cada momento, como uma mancha multicolorida de leo sob a chuva. Sabia que a dor da perda da filha que no conhecera, p sentido do que poderia ter sido, o acompanhariam at o fim de seus dias.
H anos Callie convivia com a dor da perda.
Lentamente, com o crebro ainda confuso pela ansiedade e fadiga, T.J. tentou reconstituir a cena do incidente, para entender direito o que acontecera. Ele se curvara para pegar Charlie que dormia no colo de Callie. Mas ela apertara Charlie como se o beb fosse seu.
Callie no queria entregar-lhe Charlie.
Dias antes, evitava olh-lo.
Evitava? Ou no podia?
Balanando-se, T.J. afastou as lembranas do passado, para entregar-se s imagens recentes do presente.
Na penumbra do quarto do filho, vira e ouvira Callie. Vira o carinho com que cuidara do filho. Ouvira sua voz enrouque-cida pelas emoes. Ouvira-a soluar copiosamente. Avaliara a expresso de seu rosto enquanto alimentava Charie. A determinao e a competncia dos movimentos precisos para aplicao das injees. Vira suas lgrimas quando Charlie superara a ltima crise.
Finalmente, a ltima cena. O rosto desfigurado, molhado pelas lgrimas. Os braos vazios depois que lhe entregara Charlie. As palavras, pouco mais que um murmrio.
	Pegue-o.
Os movimentos da cadeira cessaram. T.J. levantou-se para deitar Charlie no bero.
	Durma bem, garoto.
Callie no queria amar seu filho. Mas amava. Ela poderia ter partido em qualquer tempo. Mas ficara.
Havia coisas que ele no entendia. Porm, sabia que Callie amava Charlie. Mesmo que ainda no tivesse se dado por conta, seus atos traam os sentimentos. Na tentativa de saldar uma dvida, aprendera a amar seu filho. T.J. no sabia exatamente o significado da situao, mas descobriria.
Saiu  procura de Callie, encontrando-a no quarto fazendo as malas. As roupas espalhadas na cama. Todas aquelas roupas de seda lavveis  mo, algumas cadas no cho. As trs malas abertas.
As lgrimas escorriam pelo rosto. Descala, vestia os famosos jeans de seda. Os cabelos cobriam-lhe as faces devido aos movimentos rpidos. No o olhou. T.J. arrancou uma pilha de calcinhas de seda das mos dela.
	O que est fazendo?  ele perguntou.
Callie o olhou de relance.
	O bvio. Vou embora.  Recuperando as peas de roupa, colocou-as na mala mais prxima.
T.J. notou as camisolas de seda dobradas dentro da mala. Callie no era mais uma criana. Era uma mulher que batalhara anos para abrir o prprio caminho e que, de repente, voltava para sua vida.
Estava prestes a sair. No permitiria que partisse novamente.
	Fugindo?
	Claro.  Os lbios tremeram.  No  o que sempre fao?
	No sei.  o que voc faz? Sempre?         ,
Callie no o olhou. T.J. apostaria que tambm no olharia para Charlie. Ela amava Charlie. 
Callie estava partindo. A ideia de perd-la mais uma vez o aterrorizava.
	Por que quer ir embora, Callie? Por qu?
	Porque no posso ficar! Pensei que pudesse. No posso! No posso!  Sentou-se na cama sobre uma pilha de blusas.
	Por que no pode?  T.J. sentou-se ao lado dela, os joelhos se tocando. Segurou-lhe o rosto entre as mos. Diga-me, Callie.
	J fiquei tempo demais. Se no for embora...
	O que acontecer?  Enxugou uma lgrima com a ponta do dedo.  Ser o fim do mundo? Ou tem medo de envolver-se demais conosco?
 Tudo bem, T.J. Voc venceu. Se realmente queria vingana, conseguiu. Amo Charlie. Gostaria que fosse meu filho e quanto mais tempo permanecer aqui mais difcil ser separar-me dele. Sim, porque um dia, terei que deix-lo. Charlie no  meu. Ele no  minha vida. E preciso recuperar minha vida.  De costas para ele, apoiou-se na cmoda. Os ombros sacudidos pelos soluos.  V embora, T.J. Deixe-me terminar de guardar minhas roupas. Saia, por favor.
: Vai embora e nos deixar sem uma governanta?  Aproximando-se, T.J. a abraou.
	Preciso, T.J. Por favor, deixe-me ir.
	No. No desta vez, doura.
	Oh, T.J.  Soluando, abraou-o.  No aguento mais esta situao.
	Nem eu, doura. Bem, tenho uma proposta.  Afastou os cabelos do rosto dela  Creio que estamos tendo uma oportunidade muito rara. Rarssima. Uma segunda chance. Poucas pessoas tm uma segunda chance, Callie.
	O que quer dizer?
	Quero que fique.
Ela piscou. As lgrimas continuavam correndo pelas faces.
	Por qu?
Estreitando-a mais, murmurou:
	No tenho certeza, Callie. Porm, creio que seremos loucos se nos separarmos novamente.
	No estou entendendo.
	Creio que  hora de agirmos como adultos e no como adolescentes irresponsveis. H quatorze anos, voc fugiu da minha vida levando meu corao. Quero-o de volta. Quero-a de volta tambm.
	Mas voc se casou. Teve um filho. Esqueceu-me.  Tentou desvencilhar-se, mas T.J. a ergueu, jogando-a na cama coberta de roupas. Sentando-se, ela abraou os joelhos dobrados.
Sentado no cho, T.J. roou o queixo nas mos dela.
	Sim, casei-me com Suzy. Eu gostava dela, sabe. Muito mes mo. Todavia, gostar no  amar. Existe muita diferena, no?
Callie concordou com um movimento de cabea. Sentira o mesmo em relao a James. T.J. continuou:
	No  possvel dormir com uma mulher, cuidar dela, v-la escovar os dentes todos os dias, pentear os cabelos...
	Vocs tiveram um filho  interrompeu-o num fio de voz.
	Sim. Tivemos um filho e no a amava. Apesar disso, empenhei-me para ser um bom marido. Tentamos salvar nosso casamento mas, se Charlie no tivesse nascido, teramos nos separado. O problema no era Suzy. Era eu. Voc.  Tocou o nariz de Callie com o seu.  Suzy nunca me teve por inteiro. Ela sentia que faltava alguma coisa. Eu no. Dei-lhe tudo o que um marido pode oferecer para a esposa, menos meu corao. Para ela, esse tudo no era suficiente. Nem para mim.
	No quero sofrer mais, T.J.
	A vida nem sempre  um mar de rosas, Callie. Sempre h sofrimento no decorrer da nossa existncia. Entretanto, h muita alegria tambm, amor, muitos momentos felizes. Se voc der uma chance para o destino, doura.  Acariciou os cabelos sedosos. O simples toque teve o poder de amenizar a mgoa que o machucava.  E, ento? O que me diz de colocarmos uma pedra sobre o passado e corrermos o risco?
	No creio que voc consiga esquecer o passado. No ntimo, estar sempre me julgando e condenando, T.J.  Esboou um movimento para baixar a cabea, mas T.J. a impediu. Segurando-lhe o queixo, obrigou-a a erguer a cabea.
	Calie, nem por um momento tive a pretenso de julg-la.
	No foi isso que pensei.
	Voc me lanou num buraco sem fim. No consegui lidar com meus sentimentos depois de tudo o que me contou, Callie. Senti-me perdido, incapaz de raciocinar, de tirar minhas prprias concluses. Como se tivesse entrado em estado de choque:
		Achei que no tivesse me perdoado. No suportaria viver sem seu perdo...
T.J. levantou-se.
	Callie, no tenho o direito de julg-la. O fato de perdoar ou no,  irrelevante. Errei em acus-la pelo que fez quando ainda nem sara da adolescncia e por usar esse argumento contra voc. Na hora, fiquei louco. Demorou muito at esfriar a cabea. S ento pensei em tudo o que me disse. Sobre viver na minha sombra, perder a prpria identidade para integrar-se  minha. Tentei colocar-me no seu lugar, para sentir na pele o que voc deve ter sentido crescendo naquele lugar e desejando uma vida diferente. A questo no era apenas ser pobre. Era muito mais, no?
	Sim  murmurou num tom que mais parecia um lamento vindo do fundo do corao.  O fato de ser pobre nem me incomodava tanto. Eram as condies de vida, entende? As pessoas com quem eu convivia eram conformadas, no tinham objetivos e, pior, transmitiam essa conformao para os filhos. Alm disso, eu no tinha nada para oferecer-lhe. Essa ideia me apavorava. Pobre, sem instruo e dependendo completamente de voc. Acabaria por sentir-me uma intil. Um peso morto na sua vida. Eu precisava daquele sentido de autovalorizao.  Com um movimento rpido, saiu da cama.  Era muito importante saber que tambm levaria algo para o nosso casamento. Mas no tinha condies de levar absolutamente nada.
	S voc me bastava. No precisava de mais nada, Callie.
	No. - Enfatizou com um movimento de cabea.  No sabia o que queria ou o que no queria da vida. Voc era o nico a possuir metas, instruo. Eu no tinha nada. Seria apenas a criada do rei. Num casamento, as pessoas devem ter os mesmos objetivos. Devem estar no mesmo nvel de igualdade.
 Inclinando-se, recolheu algumas peas de roupas espalhadas pelo cho. Depois de cinco anos, voc estaria profundamente cansado de mim.
	Jamais.
Callie sorriu com tristeza.
	Talvez no. Mas eu teria me acabado em lgrimas, cowboy. O que, no fim, daria quase no mesmo.  Colocou uma mala na cama, arrumando as blusas e as camisas dentro.  No ramos iguais, T.J. Mais cedo ou mais tarde, estaramos nos acusando mutuamente.
T.J. arrancou-lhe a mala das mos.
	Olhe, Callie. Estou tentando entender, mas no tenho certeza de conseguir. Tudo o que sei  que quando volto para casa depois de um dia exaustivo no campo e a encontro  minha espera ou quando a vejo com Charlie nos braos, sinto um arrepio s de pensar em como ser minha vida depois que voc partir. No quero passar o resto dos meus dias na mesma solido insuportvel em que vivi nos ltimos anos.  As mos trmulas demonstravam a necessidade de faz-la compreender tudo o que no conseguia exprimir em palavras.  No se v, Callie. Fique.  Havia uma nota de desespero na voz meio descontrolada.
	Por qu?
Parou na frente dela e, encarando-a, decidiu jogar sua ltima cartada.
	Charlie precisa de voc.
	Voc sonhava com uma famlia grande. No posso mais ter filhos.  Desviou o olhar.  Charlie ser suficiente para voc?  Fitou-o intensamente. Com o corao apertado de dor, encontrou coragem para ir at o fundo do poo.  E, mesmo que pense em adoo, no conseguir uma criana apenas com um estalar dos dedos. Existem centenas de pessoas esperando por crianas. Falo com conhecimento de causa. Tentei adotar uma criana, porm, como solteira, foi praticamente impossvel. Pense bem no assunto, T.J., porque essa tambm  uma deciso de adultos. Charlie ser filho nico.  o que voc quer? Do que precisa?
	Quero voc, Callie.  Abraou-a contra o peito.  Sente meu corao, doura? Ele enlouquece quando penso em voc. Sempre foi assim, Callie. Voc  tudo que preciso para ser feliz. Voc e Charlie so minha felicidade.
Tudo parecera normal e absolutamente encaixado quando a vira embalando Charlie na cadeira de balano mas, de repente, duvidava que suas palavras surtissem o efeito desejado para convenc-la. Temia perd-la de novo. Jamais se perdoaria se no conseguisse encontrar as palavras certas para exprimir seus sentimentos.
Com os ombros cados e a voz cansada, ela repetiu:
	Charlie ser suficiente para voc? E eu? Serei suficiente para voc?
T.J. desafiou-a, respondendo com outra pergunta.
	Charlie ser suficiente para voc?
	Ele  muito mais do que jamais esperei ter na vida. Eu o conheo h apenas alguns dias, mas o amo muito mais do que imagina, T.J.  Callie pressionou os lbios no peito dele.
	Seremos uma famlia feliz, Callie.  Conteve a respirao, esperando.
	Sim  ela respondeu, por fim.
T.J. a beijou. Mesmo sob a presso carinhosa dos lbios dele nos seus, Callie lembrou-se que ele dissera que Charlie precisava dela. No dissera que ele precisava. Dissera que a queria. Sempre soube disso, Sempre estivera muito consciente do elo que os unia.
As dvidas desapareceram diante da paixo que os carinhos dele despertavam. Esqueceu-se, tambm, que ele afirmara apenas que o fato de t-la perdoado ou no era irrelevante e no que a havia realmente perdoado.
Com o tempo, ela teria oportunidade de certificar-se se poderia acreditar nos sentimentos dele. Descobriria tambm se T.J. colocava as necessidades de Charlie  frente das dele. Mesmo assolada pelas dvidas, Callie decidiu esperar.
Na manh seguinte, T.J. levou Callie at a ilha, alegando que ela precisava de tempo para pensar.
	E Charlie?  Olhou para o beb que dormia sob a sombra do velho carvalho.  No irei a parte alguma enquanto no tiver algum aqui para cuidar dele.  Assumira um compromisso e por nada deixaria de cumpri-lo. Desta vez, no se casaria com as mos vazias. Levaria sentimentos e responsabilidades. Amava Charlie. Ele precisava de uma me.  Algum respondeu ao anncio?
	Nunca coloquei anncios no jornal. A irm de Rena estar disponvel por quatro dias.  Riu diante de uma Callie boquiaberta.
	O qu? Voc nunca comentou nada? Sei, doura, sei  resmungou, colocando o cesto de Charlie no banco da pkape.
Callie o seguiu de carro at o chal, onde ficaria at o dia do casamento.
Depois que T.J. e Charlie voltaram para a fazenda, Callie achou opressivo o silncio do chal  beira da praia. Sentia falta do rudo dos cavalos no pasto, falta dos resmungos de Charlie.
Antes de irem para o chal, T.J. e ela haviam passado no cartrio para darem entrada nos proclamas do casamento, fizeram o exame de sangue exigido por lei e marcaram o casamento religioso.para o sbado seguinte. Concordaram em casar-se na mesma igreja onde deveriam ter-se casado quatorze anos antes.
A noite, ouvindo o barulho das ondas pela janela aberta, Callie pensou que, talvez, ela e T.J. estivessem se expondo a Um risco muito grande. Mesmo assim, acreditava estar tomando a deciso certa. Esperava, sinceramente, que ele no se arrependesse do passo que daria.
Nos dias seguintes, decidiu ligar para os nmeros de telefones que tinha dos irmos. Haviam se mudado, sem deixar novo nmero ou endereo. Por fim, localizou Deena, que no deu certeza se iria assistir ao casamento. Disse que no sabia do paradeiro dos outros irmos e, para encerrar o telefonema com chave de ouro, perguntou se Callie no poderia emprestar-lhe duzentos dlares por um ou dois meses.
Callie prometeu mandar-lhe um cheque pelo correio naquele mesmo dia. Tinha certeza que Deena no viria para o casamento mas, pelo menos, tentara.
Reformularia seu esquema no hospital, de modo a trabalhar meio perodo depois...
Depois consistia na parte crucial que lhe causava arrepios na espinha. Depois poderia significar para sempre. Havia muita coisa em jogo. Continuaria trabalhando. Precisariam de rendimentos. Precisava da segurana de estar contribuindo para o oramento da casa. Pretendia passar o mximo de tempo possvel com Charlie, de modo que um emprego de meio perodo seria a soluo ideal. 
Esperava. 
As noites em que Charlie e T.J. no vinham tornavam-se insuportveis. Todas as dvidas que desapareciam com a presena deles, aumentavam de proporo na ausncia de ambos.
Cailie contava as horas que os separavam. Nunca imaginara que poderia sentir tanto a falta de um grande e de um pequeno homem. Na quinta-feira antes do casamento, sentiu-se  beira de um ataque de nervos. No poderia chamar T.J. Andava pelo chal como uma fera enjaulada, tentando reconsiderar todas as razes que a levaram a concordar com o casamento, razes essas que lhe pareciam to convincentes apenas alguns dias antes. A noite, quando a campainha soou, correu para abrir a porta. No se surpreendeu ao deparar com T.J/
	No d boas-vindas para um cowboy solitrio?
Cailie o abraou.
	Oh. T.J., sinto tanto sua falta!
	Que bom, doura!
Depois, no disse mais nada.
Fechando a porta, ergueu Cailie nos braos. Ela envolveu a cintura dele com as pernas. Beijando-a, T.J. caminhou at a poltrona mais prxima, onde se sentou.
Cailie queria mais. Precisava dos carinhos dele para assegurar-se de que T.J. tambm precisava dela. Com os dedos nos cabelos dele, puxou-o at que os lbios dele tocassem seus seios.
Com dedos geis, T.J. desabotoou a camisa de algodo que Cailie vestia, enquanto beijava a pele macia da curva dos seios.
	Oh, Cailie, como voc  perfumada! Nem imagina o quanto ansiei pelo momento de provar o gosto da sua pele, doura!
A umidade da lngua em sua pele e a rigidez de sua masculinidade contra o abdmen dela, fizeram com que Cailie esquecesse as dvidas que a atormentavam.
	Calliope Josephine, voc est brincando com fogo  mur murou ao ouvido dela.
Ele ainda a segurava pelas pernas. Respirava com dificuldade, enquanto as mos atrevidas a acariciavam com maior avidez.
	Voc no perde tempo, cowboy  ela brincou, mordiscando-lhe a orelha. Adorou o gemido que T.J. deixou escapar.
	Vamos parar por aqui, doura.  O sorriso dele desmentia  as palavras. Beijou-a longamente antes de acrescentar:  No sei como sobreviverei a mais trs dias de tormento.
	No precisa  ela sussurrou, beijando-o no pescoo. Introduzindo os dedos pela camisa, acariciou-o at tocar no cinto. A pele dele queimava-lhe os dedos, enquanto as dvidas e os temores gelavam sua alma.
	Quero-o tambm, T.J. Preciso de voc.
Queria ouvi-lo dizer que a amava. Precisava dessa confisso.
	Sim? Desta vez, faremos tudo direito, Cailie.  Com os dedos trmulos abotoou a camisa dela, parando por um momento no vale formado entre os seios.
	O que quer dizer?
	O que estou tentando dizer, doura,  que pretendo agir como um cavalheiro.
	Para que esperar?  murmurou, beijando-o de leve nos lbios.
	Bem, eu quero esperar.  Com firmeza, colocou-a no cho, segurando-a pelo brao, at Cailie readquirir o equilbrio.  Da outra vez, fizemos amor e voc achou que no tinha outra alternativa, exceto fugir. Calliope Josephine, agora estou lhe oferecendo todas as alternativas do mundo.
	No fugirei  ela protestou.  Voc sabe disso. Amo Charlie. Amo voc.  Tapou a boca com a mo.  Oh, T.J., no importa se voc no me ama tambm  lamuriou-se.  Fiz minha escolha. Tomei minha deciso. Sei muito bem o que estou fazendo.
	Cus! Do que voc est falando?  Confuso, ergueu as sobrancelhas.  Claro que a amo, mulher! Por qual outro motivo quero me casar com voc?
	Por causa de Charlie. Ele precisa de uma me. Porque... porque voc gosta de me beijar, ora!
	Droga!  claro que gosto de beij-la.  Beijou-a at Callie perder a respirao.  Mas quero casar porque no consigo viver sem voc. Porque estou perdidamente apaixonado por voc, Calliope Josephine. Porque, longe de voc, vivo como um co sem dono.  Respirou fundo, para tomar flego.  Porque se no a amasse de verdade, no hesitaria um minuto sequer para lev-la para a cama, mulher!
	No estou entendendo. Suas palavras no fazem o menor sentido.
	Veja bem. Desta vez, quero que as coisas aconteam na hora certa. No quero que nada saia errado. Ns nos machucamos muito no passado, Cailie. No era nossa inteno, claro, mas nos machucamos.  Cailie tentou abra-lo, mas ele se  afastou.  Voc estava certa. Ambos ramos crianas. Vivemos aquela louca paixo... no mais do que isso. No tnhamos maturidade suficiente para avaliarmos nossos sentimentos. Vamos comear de um modo diferente, Callie. Desta vez quero que saiba que no a considero uma garota do outro lado da cidade, como voc mesma disse, mas quero estar seguro do passo que estamos prestes a dar.
Eu estou segura, cowboy.  Cruzou os braos.  J lhe disse isso.
Quero que saiba o quanto gosto de voc, o quanto gosto da garota que vive dentro de voc e que ainda quer saber se as pessoas riem dela. No, no riem, doura. Nunca riram  falou com voz enrouquecida.  Bem, desta vez, vamos esperar. Vamos fingir que acabamos de nos conhecer. Este ser nosso verdadeiro casamento. O incio de tudo.
Voc enlouqueceu!
Provavelmente.  T.J. tirou o chapu.  No poderemos mudar o passado mas, sim, aprendermos com ele. De hoje a sbado quero que pense em tudo o que conversamos, Callie. Se suportar viver na fazenda, comigo. Com a diabete de Charlie e suas implicaes. Se, por acaso, concluir que no conseguir lidar com tudo isso, se mudar de ideia, por favor, no fuja. No dever haver mais segredos entre ns. Esta  a nossa segunda chance, Callie. Esperarei por voc tanto quanto esperei da outra vez. Duas horas. O dia inteiro, se necessrio. Mas pense bem no assunto. Estou arriscando meu corao. No o de Charlie. Esteja bem certa da sua deciso. No teremos a terceira chance.  T.J. no poderia ter sido mais objetivo.
Beijou-a de novo e pegando o chapu, abriu a porta.
A porta bateu atrs dele.
Pela primeira vez, em muitos anos, tudo tornara-se muito claro para Callie. Compreendia o tipo de presente que T.J. lhe oferecia.
Separou um vestido branco, telefonou para as pessoas que T.J. convidaria para o casamento e procurou na lista telefnica o nome de uma rotisseria. Depois de trocar ideias com o proprietrio, encomendou uma variedade de comidas, solicitando que entregassem na fazenda no dia e horrio estipulados.
-Decidiu dar um presente para T.J. Chegaria  igreja antes dele. Esperaria por ele no altar. No o deixaria esperando nem mesmo enquanto caminhava pela nave. Devia-lhe este presente.
Sbado amanheceu chuvoso. Preocupada com Charlie, quase telefonou para a fazenda. Desistindo da ideia, decidiu cuidar de seus afazeres. Comeou a preparar-se com bastante antecedncia. No pretendia atrasar-se em hiptese alguma. Trocou de roupa, maquilou-se e, no caminho para a igreja, pegou o buque na floricultura.
Como planejara, chegou cedo  igreja. Caminhou lentamente pela nave e subiu os degraus at o altar.
A claridade entrava pelos vitrais coloridos. Com a cabea erguida, esperou de frente para o altar. O padre se aproximou e lhe falou em voz baixa. Callie concordou com um movimento de cabea. s suas costas, ouvia o rudo da porta sendo aberta e os passos das pessoas que entravam. Depois, um silncio pesado.
O organista iniciou os acordes de uma msica empolgante. Callie fechou os olhos, emocionada. Esperou. Nada aconteceu.
As flores balanavam nas mos trmulas. Imvel no altar, recusava-se a olhar para a entrada da igreja. Esperaria. Como T.J. a esperara. Devia-lhe isso. O tempo passava lentamente, quase parando. Algumas ptalas das flores do buque caiam sobre o carpete do altar, amassadas pelos dedos dela. Ouvia o murmrio das pessoas sentadas nos bancos. Callie perdeu a conta das vezes em que o organista repetiu a msica.
O padre aproximou-se novamente. Falou qualquer coisa. Callie concordou, sem entender nada.
As horas passaram e o buque ficou reduzido a alguns botes de rosa e poucas margaridas. Atordoada, olhou pela janela. Escurecera.
Compreendeu que T.J. no viria mais. No poderia culp-lo. As lgrimas corriam pelo rosto maquilado. Se ele planejara uma vingana, no poderia ter conseguido um resultado mais perfeito. Largou o buque, que caiu ao cho. Virou-se com o peito oprimido pela dor. Com os olhos embaados pelas lgrimas no enxergava nada, exceto um vulto caminhando pela nave. Olhou para o relgio colocado na parede acima da porta principal. Mal distinguia os nmeros, mas, mesmo assim, pela posio dos ponteiros, descobriu que haviam se passado apenas vinte minutos desde que entrara na igreja.
Vinte minutos. Uma vida. Uma eternidade. Vinte minutos.
Piscou. Caminhando pela nave, T.J. se aproximava com Charlie nos braos.
	Ah-bah!  ele gritou, estendendo os braos para Callie.
Em meio s pessoas que a olhavam, Callie reconheceu os cabelos vermelhos de Buck. Uma jovem de cabelos castanhos com um garoto de cerca de seis anos no colo, sentava-se ao lado dele. Seu sorriso era amistoso e, com expresso de felicidade, inclinou a cabea para conversar com um homem forte que mantinha o brao protetoramente s costas dela.
Sarah Jane!
No banco de trs, Hank e os pais de T.J.
Em outro banco, avistou Deena, que inclinou a cabea, sorrindo.
Callie queria pular de alegria.
Estavam todos l. Por ela. Por T.J. Um crculo de amor pelo qual jamais esperara. Uma comunidade. Uma famlia.
Olhou para T.J. parado a seu lado e para Charlie no colo do pai. Os dois rostos amados que desejava ver todas as manhs pelo resto da vida.
T.J. aproximou-se o mais que pde de Callie e, em voz baixa, para ningum ouvir, murmurou:
	Desculpe, Callie. No pretendia me atrasar. Mas no conseguia encontrar as benditas fraldas.
	Achei que no viria mais.  As lgrimas teimavam em escorrer pelas faces.  Pensei que no viria mais!  repetiu.
Inclinando-se, T.J. a beijou.
Ainda duvidando de mim, doura? Precisa aprender a confiar em mim. Em mim e em voc mesma.
Antes que o padre comeasse a cerimnia, T.J. colocou Charlie nos braos dela e murmurou ao seu ouvido:
Tudo o que tenho, estou lhe entregando neste momento, Calliope Josephine. Eu, meu filho. Agora e para sempre.
Com a voz embargada pelas lgrimas, ela respondeu:
Tudo o que sou, tudo o que serei, entrego a voc, Thomas Jefferson Tyler. Eu, meu corao. Minha confiana. Agora e para sempre.

FIM
